
por Reinaldo Polito
Publicado em 22/06/2025, às 07h48
Depois de 50 anos como professor de oratória e tendo publicado 38 livros sobre a arte de falar em público, descobri alguns segredos que talvez possam surpreendê-lo. É essa descoberta que quero dividir com você e, quem sabe, ajudá-lo a ser um orador muito melhor.
O orador perfeito não existe
Aprendi ao longo dessas cinco décadas que falar bem em público não significa se expressar com perfeição. Ao contrário, quem comete erros até elementares, em certas circunstâncias, pode mostrar que é humano, não fabricado, não produzido, não robotizado. Somos imperfeitos. Cometemos deslizes, gafes, falhas. O orador idealizado é uma utopia. Um sonho que pode ser frustrante.
Não, não estou aqui glamourizando o erro. Só estou dizendo que as incorreções fazem parte das nossas ações. Pense em um orador admirável, aquele que poderia ser o modelo das aspirações oratórias. Descobriu um, dois, três? Sim, são empolgantes, envolventes, persuasivos, mas provavelmente sejam assim porque também são imperfeitos.
Nem tudo é voz bonita e dicção impecável
Ninguém consegue ser irrepreensível em todos os aspectos. Talvez esse orador que acabou de visualizar tenha voz bonita, dicção perfeita, faça pausas expressivas e apresente tantas outras qualidades invejáveis. Mas como é a expressão corporal dele? E o vocabulário? Será que esse comunicador extraordinário sabe estruturar a fala com perfeição? Consegue interagir de maneira simpática com os ouvintes?
E se tiver todas essas qualidades, será que não haveria um ou outro ponto que poderia ser aprimorado? E, quem sabe, não seriam essas imperfeições que o tornam tão cativante? E mais: o que é qualidade para uns pode ser visto como defeito para outros. Ou seja, conseguimos ser bons oradores apesar de não dominarmos todos os fundamentos dessa arte.
Kennedy, Roosevelt, Rui Barbosa, Ulisses... todos com limitações
O presidente Kennedy, por exemplo. O líder americano foi considerado um dos oradores mais carismáticos da história. Até hoje, seu discurso de posse em 1961 é reproduzido em todos os cantos do mundo como sendo exemplar. Mas também não era perfeito. Possuía voz agudizada, monótona, quase irritante. Ficava na “zona de rebaixamento” quando comparado com Roosevelt ou Churchill.
Esse “defeito”, todavia, não o impediu de encantar multidões com seus pronunciamentos. Outro exemplo marcante é o próprio Roosevelt, que, por conta da paralisia, tinha a expressão corporal bastante limitada. Não precisamos ir tão longe. Aqui no Brasil temos casos de sobra para serem analisados. O Águia de Haia, Rui Barbosa, possuía voz com timbre desagradável e tom monótono. Ulisses Guimarães, o Senhor Diretas, falava com dicção tão defeituosa que, às vezes, era difícil de ser compreendido.
Brilhantismo vai muito além da forma
A relação de oradores proeminentes com essas características defeituosas é extensa. Todos eles, entretanto, ficaram para a história também pela excepcional capacidade de se comunicar com as plateias. Nenhum perfeito. Uns empolgavam pelo brilhantismo do raciocínio, outros pela força de suas convicções e alguns pela forma simpática e envolvente como se dirigiam aos ouvintes.
As pessoas têm a tendência de procurar defeitos em sua comunicação. Ah, eu falo né? Ah, eu não sei respirar. Ah, o meu coração acelera diante do público. Não foram poucos os casos de alunos que me procuraram com reclamações semelhantes, mas que, apesar de terem mesmo esses pontos negativos, se transformaram em ótimos oradores.
Limitações? Tudo bem, desde que você saiba como lidar com elas
Alguns até eliminaram essas imperfeições. Outros, no entanto, continuaram como estavam, com as mesmas limitações, mas, ao se conscientizarem de que esses pontos precisavam ser observados dentro de um conjunto mais amplo, descobriram que poderiam ser excelentes, ainda que, como seres humanos normais, apresentassem essas “falhas”.
Portanto, não se preocupe muito se julgar que a sua comunicação é defeituosa. Primeiro, porque esses “defeitos” talvez sejam importantes para conquistar os ouvintes. Depois, porque, associados a todos os outros detalhes da sua fala, poderão ser considerados bastante naturais.
O importante para quem fala em público é o resultado. Se conseguir aprovar o projeto, vender o produto, conquistar o voto, liderar a equipe, os objetivos foram atingidos e conseguiu o que desejava. Seja sempre você mesmo. Melhore, aprimore, aperfeiçoe, mas jamais perca a sua essência. Lembre-se sempre de que o melhor de você é ser você mesmo. Siga pelo Instagram: @polito
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