
por Reinaldo Polito
Publicado em 08/02/2026, às 10h16
Lula já não encanta mais as plateias. Perdeu a mão. Seus improvisos, que eram admirados até pelos adversários, hoje se transformaram em um punhado de gafes. Com frequência, sua assessoria precisa apagar os incêndios que ele provoca com seus discursos. São desatinos tão gritantes que, às vezes, ficam até sem explicação.
Basta pesquisar nos mecanismos de busca para que, em segundos, surjam dezenas de exemplos de suas impropriedades verbais. Para citar apenas algumas das que provocaram reações negativas.
Falas infelizes
Em outubro de 2025, ao discursar em Jacarta, afirmou:
“Toda vez que a gente fala de combater as drogas, possivelmente fosse mais fácil a gente combater os nossos viciados internamente. Os viciados são responsáveis pelos traficantes, que são vítimas dos usuários também. Você tem uma troca de gente que vende porque tem gente que compra; de gente que compra porque tem gente que vende.”
Em 2024, em entrevista à CBN, ao comentar a gravidez de uma mulher vítima de estupro, fez outra afirmação muito questionável:
“Que monstro vai sair do ventre dessa menina?”
E, para não ir tão longe, há outra que não pode ficar fora dessa lista. Em agosto de 2025, ao fazer a entrega de unidades odontológicas móveis em Sorocaba (SP), comentou:
“Eu chamei o ministro e perguntei: ‘Escuta aqui, por que você colocou essa fotografia desse senhor negro sem dente? Você acha isso bonito? Você acha isso bonito, cara? Isso é fotografia para você colocar representando o Brasil no exterior, um cara sem dente e ainda negro?’”
Até os adversários se rendiam
Por essas e outras, Lula, com seus improvisos equivocados, mais atrapalha do que ajuda. Em certas oportunidades, tentaram lhe dar um texto escrito para leitura, mas o homem não resiste a um microfone. Assim que vê o público à sua frente, sai falando, sem filtro, o que lhe vem à cabeça. Muito provavelmente, porque imagina ainda ser o grande encantador de plateias que foi no passado.
Em 2008, Lula era imbatível. Conquistou, com seu jeito habilidoso de se expressar, astronômicos 80% de aceitação popular. Seus adversários se rendiam ao charme cativante do então presidente. Arthur Virgílio, por exemplo, líder do PSDB no Senado e um dos mais agudos oponentes de seu governo, rendeu-se em comentário nas Páginas Amarelas da Veja:
“O presidente Luiz Inácio Lula da Silva é um líder de massas, o maior que o país já teve desde Getúlio Vargas. O carisma dele é inegável.”
A oposição não tinha argumento
Fernando Henrique Cardoso hoje é parceiro do presidente, mas, quando governou o país, passou dois mandatos recebendo pancadas do opositor. Mesmo assim, revelou em uma de suas palestras que seu maior mérito havia sido o de vencer Lula, um líder carismático.
A oposição não sabia para onde correr. Vivia atrás de “um fato novo” para virar o jogo. Entretanto, entrava dia, saía dia, e o ex-sindicalista continuava inatingível. Com sua oratória sedutora, precisava de poucos segundos na tribuna para entusiasmar o público com sua mensagem.
Estratégia bem-sucedida
Foi uma época em que conseguiu “colar” a imagem de que pertencia ao povo, ora como paizão, ora como mais um brasileiro comum. Quando lançava uma medida popular, era o pai protegendo seus filhos. Quando era atacado, juntava-se ao povo como um igual para se defender das “elites” opressoras.
Falava a linguagem que o povo entendia e desejava ouvir. Poucos, como ele, conseguiam atingir o coração de uma população inculta e despreparada. Nessa época, 50% dos brasileiros não sabiam onde ficava o Brasil, 84% não tinham ideia de onde estava a Argentina e 97% não conseguiam localizar a França no mapa. Em interpretação de textos, éramos, e ainda somos, um dos últimos colocados no mundo.
Estilo que deu certo
Contando histórias, lançando mão de metáforas, brincava, comparava assuntos econômicos com futebol. Tudo com uma simplicidade que entrava na cabeça dos eleitores e ia direto ao coração. E não eram apenas as pessoas incultas que o reverenciavam: ele tocava o sentimento de todas as classes sociais.
Atualmente, o presidente perdeu esse apelo. Dificilmente se apresenta diante de plateias que não sejam compostas por “convertidos”. Com frequência, recebe vaias antes mesmo de pronunciar uma única palavra. Não se adaptou aos novos tempos. Continua a falar como se os eleitores fossem os mesmos daqueles tempos de glória.
Com a idade que tem, provavelmente não terá condições, nem vontade, de fazer as mudanças necessárias em seus discursos para se adaptar à nova realidade. Tudo indica que ficará apenas na lembrança daqueles que o conheceram nos momentos de maior brilho. Siga pelo Instagram: @polito
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