
por Reinaldo Polito
Publicado em 01/12/2024, às 08h12
Inelegível até 2030, Bolsonaro jamais desistiu de reaver seus direitos políticos. Para isso, aposta boa parte de suas fichas no retorno de Donald Trump à Casa Branca como um aliado estratégico.A vitória do 'amigo' republicano nas eleições americanas é vista pelo ex-presidente brasileiro como um de seus principais trunfos para retomar a elegibilidade até 2026.
Daqui para a frente, à medida que se aproxima a data das eleições, Bolsonaro deverá se comportar como um animal acuado, procurando por todos os meios sair da posição desconfortável em que se encontra hoje. Se aguardar placidamente a decisão final sobre sua inelegibilidade, o resultado parece estar delineado.
Exemplos recentes
A ex-presidente Dilma Rousseff, após sofrer impeachment, conseguiu preservar seus direitos em uma manobra evidentemente política, apesar das regras constitucionais claras que previam seu afastamento por oito anos. Esse episódio evidencia que, nessa questão, quase nada é definitivo.
Para mencionarmos outro exemplo ainda mais emblemático, lembremo-nos de Lula. Preso por condenação em segunda instância, sem nenhuma condição de concorrer a cargos eletivos, conseguiu o “milagre” de ser libertado e conquistar o direito de concorrer nas últimas eleições presidenciais e voltar para o seu terceiro mandato.
Entrevista ao Wall Street Journal
São alguns casos recentes que demonstram a fluidez da política nesse vaivém de orientações que ora pendem para um lado, ora para outro. Por isso, Bolsonaro acredita que pode superar as restrições impostas e, quem sabe, retornar ao Palácio do Planalto.
Em entrevista ao Wall Street Journal, Bolsonaro revelou que deseja se candidatar nas próximas eleições, e que para isso conta com o apoio de Donald Trump. Ele também mencionou esperar a imposição de sanções contra o governo Lula.
Demonstrações de amizade
O futuro ocupante da Casa Branca sempre demonstrou apreço e admiração ao ex-presidente brasileiro. Em várias oportunidades fez referências elogiosas a Bolsonaro. Não só a ele como também ao seu filho, o deputado Eduardo Bolsonaro.
Tanto que o chamado filho 03 acompanhou o resultado das eleições americanas no QG dos republicanos no estado da Flórida, e participou de um jantar exclusivo com Trump no seu resort em Palm Beach. Não há dúvida de que existe um bom relacionamento entre Jair Bolsonaro e o líder republicano. Na dedicatória em um livro que deu de presente ao ex-presidente do Brasil, escreveu: “Jair, você é grande”.
Alguns empecilhos
Chamou a atenção também o fato de Bolsonaro aparecer em um dos vídeos
mais importantes na campanha de Trump. Todas essas informações compõem
um mosaico que comprova a simpatia que um nutre pelo outro. Diferente do que
ocorre com Lula. O petista demonstrou abertamente que apoiava a reeleição de
Biden e, com a desistência deste, a predileção por Kamala Harris.
Mas que ajuda Trump poderia dar a Bolsonaro, caso deseje mesmo apoiá-lo neste retorno como candidato? Oficialmente, além de dizer que torce por ele, pouco pode ser feito. Qualquer outro tipo de auxílio afronta os princípios da autodeterminação dos povos, que orienta as relações do Brasil com a comunidade internacional.
Recuo diplomático
Basta lembrar do recuo que o chanceler da Hungria, Peter Szijjártó, teve de fazer depois de oferecer ajuda a Bolsonaro durante sua campanha à reeleição em 2022. Diante de um mal-estar diplomático, o governo húngaro foi rápido em esclarecer que a declaração se limitava a um apoio simbólico a Bolsonaro.
Ainda que exista esse impedimento, pelo impressionante poder econômico dos Estados Unidos, uma interferência mesmo que indireta de Trump, que agora conta com a maioria na Câmara, no Senado e na Suprema Corte, terá condições de mexer nesse intrincado tabuleiro da convivência entre os dois países.
Uma porta de esperança
Bater de frente com alguém tão poderoso não parece ser uma iniciativa recomendável. Por mais que a justiça deva ser levada ao pé da letra, sem dúvida, há um componente político que não pode ser desconsiderado.
Tanto é verdade que alguns seguidores de Bolsonaro dizem que, se os atos que provocaram a sua inelegibilidade tivessem ocorrido com outro político, o atual presidente, por exemplo, a pena não seria tão rigorosa. Elon Musk, um aliado próximo de Trump, também pode influenciar nas aspirações políticas do ex-presidente.
2026 que parecia estar tão distante, já bate à nossa porta. Se Bolsonaro deseja mesmo reverter a sua situação atual, precisa recorrer a todos os meios de que dispuser. E Trump parece ser um bom caminho nessa árdua e imprevisível jornada.
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