
por Reinaldo Polito
Publicado em 30/11/2025, às 09h30
Não se fala em outro assunto: a prisão de Bolsonaro. Matérias relevantes para o país como, por exemplo, a roubalheira sem precedentes no INSS, o rombo dos Correios e a explosão do Banco Master ficaram para segundo plano. Se alguém aguardava uma cortina de fumaça para encobrir esses temas bombásticos, recebeu um presentão.
Sim, não poderia haver nada melhor para desviar o noticiário. A prisão eclipsou completamente as manchetes. Se pegarmos os principais órgãos de imprensa, quase nada aparece a respeito da CPMI do INSS. As falcatruas assustadoras levantadas nas investigações, que colocaram pessoas poderosas sob holofotes comprometedores, tiveram um momento de trégua.
Li com atenção as análises feitas à exaustão sobre a prisão do ex- presidente. Não há muitas variações. Em algumas delas até tentaram demonstrar certa imparcialidade, mas não conseguem ir até o fim. Em um momento ou outro, a opinião cáustica identifica a tendência do comentarista. Nenhuma novidade. Quem acompanha o caso desde o princípio já percebeu que essa é uma postura normal e frequente.
De maneira geral, as opiniões são a de que, com Bolsonaro preso, sua ação política perde a força. Longe de seus seguidores e sem poder se comunicar com a população, impedido de andar pelo país como sempre fez, a impressão é de que se distancia do burburinho político, caminhando para o esquecimento, rumo ao ocaso.
Não há como discordar de que estará afastado de seus admiradores e sem condições de se comunicar com eles. Há nessa avaliação, entretanto, uma possível falha causada mais pela torcida ideológica do que pela realidade.
O ex-presidente é hoje visto pelos bolsonaristas como um “mártir”, que, ao contrário do que sugerem pesquisas enviesadas, mantém acesa a força de algo em torno de metade do eleitorado. É ainda o maior líder conservador da atualidade.
A maioria dos bolsonaristas não jogou a toalha. A cada dia renova suas esperanças de que acontecimentos salvadores tragam “seu comandante” de volta à luta. Entre seus apoiadores, há quase certeza de que, com a nova formação do TSE (Tribunal Superior Eleitoral), ele será inocentado do crime de ter feito reunião com os embaixadores para falar das urnas eletrônicas.
Os parlamentares que o apoiam continuam insistindo na aprovação de uma anistia geral e irrestrita. São duas expectativas que, embora encontrem barreiras praticamente insuperáveis, não são impossíveis. Existem frestas que poderão ser exploradas para que essas esperanças se concretizem.
Portanto, quem olha para o cenário atual apenas com olhos de quem torce pelo resultado negativo colocará o carimbo de “descartável”. Por outro lado, aquele que se dispõe a enxergar o copo meio cheio poderá até perceber que o eleitorado de Bolsonaro talvez se amplie. As pessoas que tinham certa rejeição, especialmente pela forma meio truculenta e até agressiva de ele se comunicar, terão agora um momento de reflexão e talvez cheguem à conclusão de que há, por trás de todas as narrativas formuladas, verdades que não puderam vir à tona.
Dentro dessa perspectiva dos bolsonaristas, não se pode deixar de fora da equação as ações de Trump, que já agiu com severidade contra autoridades brasileiras. Retirou o visto de entrada de oito dos 11 ministros do STF e aplicou a Lei Magnitsky, um dos instrumentos de sanção mais duros da legislação americana.
Se todas essas variáveis forem juntadas como apoio a Bolsonaro, independentemente das dificuldades de serem postas em prática, existe luz no fim do túnel. O ex-presidente está, sim, em posição delicada e quase desesperadora, mas, em política, nada é imutável. Jânio voltou a se eleger prefeito de São Paulo em 1985 depois de ser considerado “morto” para a política após a sua renúncia à Presidência.
E não podemos nos esquecer de Lula. Depois de ser condenado em várias instâncias, segundo Sérgio Moro, por dez juízes, quando todos imaginavam que para ele não havia mais salvação e que iria cumprir pena ainda mais longa, fora da política, eis que surge o ministro Fachin alegando que a 13ª Vara Criminal de Curitiba não era competente para julgar o petista. Por isso, anulou todas as condenações.
Muitos estão desanimados e sem rumo. Outros comemoram esse momento como uma grande conquista. Depende sempre das cores ideológicas de cada um. Talvez seja cedo para amargar a derrota ou vibrar com a vitória. Pode ser que tudo continue como está, mas há precedentes de virada de mesa por motivos inimagináveis.
Quando existem possibilidades minimamente concretas para essa reviravolta, não se pode cravar a situação de Bolsonaro como definitiva e irreversível. A poeira vai baixar, outros fatos surgirão e o tempo, como sempre, será o senhor da razão. Siga pelo Instagram: @polito
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