Cena 1: O procurador Augusto Aras, considerado fiel aliado do presidente Bolsonaro, ouve que senadores de oposição querem seu impeachment e abre por

Redação Publicado em 11/02/2022, às 00h00 - Atualizado às 06h58
Cena 1: O procurador Augusto Aras, considerado fiel aliado do presidente Bolsonaro, ouve que senadores de oposição querem seu impeachment e abre por iniciativa própria um canal de diálogo com o trio mais odiado pelo Planalto: Randolfe Rodrigues, Omar Aziz e Renan Calheiros.
Cena 2: O ministro da Casa Civil, Ciro Nogueira, o mais poderoso do governo Bolsonaro, faz um comício de 25 minutos no Piauí, apresenta seus candidatos a governador (sua mulher é vice na chapa) e a senador e “esquece” de citar o nome de Bolsonaro.
Cena 3: O governador do Rio, Cláudio Castro, do mesmo partido do presidente, traça a estratégia de sua campanha: evitar a “nacionalização” da eleição para o Palácio Guanabara. O que significa não usar Bolsonaro, seu principal cabo eleitoral, como peça chave da campanha.
Cena 4: O presidente do Senado, Rodrigo Pacheco, eleito com apoio do Planalto, leia-se orçamento secreto, faz um ano depois da vitória um discurso no qual afirma que aos derrotados só cabe reconhecer o resultado da eleição. Os derrotados, leia-se Bolsonaro.
Diante destes quatro cenários, o leitor pergunta: Bolsonaro já é um pato manco? A imagem, chupada da cultura norte americana, define o presidente em seu último ano de mandato, sem possiblidade de reeleição. Portanto, sem perspectiva de poder. Como definiu o ex-presidente Michel Temer, um presidente a quem é servido cafezinho frio.
Qualquer analista político sabe eleição é como pandemia: tudo parece sob controle e previsível, até que surge uma “variante de preocupação”. E o que não faltam na política brasileira são variantes de preocupação.
O presidente do Cidadania, deputado Roberto Freire, lembra a eleição ao governo gaúcho, em 2002, quando parecia que a disputa seria resolvida entre Tarso Genro (PT) e Antônio Brito (PPS). O traço nas pesquisas Germano Rigotto (PMDB) acabou levando as chaves do Palácio Piratini. Vinte anos antes, a eleição no Rio era uma disputa entre Miro Teixeira (MDB) e Sandra Cavalcanti (PTB). Eis que surge a “terceira via” com o slogan, “Nem Miro, nem Sandra, pra seu governo, Moreira Franco”. Moreira (PDS) dispara na preferência popular, mas surge a “quarta via”: “Nem Miro, nem Sandra. Pra ser Franco, nem Moreira. Brizola na cabeça”. Resultado: Leonel Brizola (PDT) levou a eleição e pagou a conta de condomínio do Palácio Guanabara pelos próximos quatro anos.
Portanto, achar que uma eleição está resolvida a oito meses de o eleitor apertar a tecla é coisa para Mãe Dinah ou torcedor. Mas é fato que os mundos político, empresarial e jurídico vem trabalhando cada vez mais e com absoluta naturalidade em cenários pós-Bolsonaro. “Em Brasília, a perspectiva de uma vitória de Lula vem fazendo algumas figuras-chave se mexerem”, confirma a colunista Malu Gaspar.
Mas, se prudência e a infectologia não recomendam que se considere Bolsonaro um pato manco, como descrevê-lo no atual momento? Quem dá a resposta é Toquinho na canção “Pato Pateta” . Vejamos um trecho:
O pato pateta
Pintou o caneco
Surrou a galinha
Bateu no marreco
Pulou do poleiro
No pé do cavalo
Levou um coice
Criou um galo
Na canção, o pato pateta, de tão desastrado e tumultuado, tem como destino final a panela. Não que Bolsonaro seja um pateta. Ele só chegou ao poder porque o mundo político nunca o levou a sério, sempre o tratou como pilhéria, como um deputado pateta. E deu no que deu. Mas seus movimentos políticos são de um pato pateta. Ele surra as vacinas, pinta o caneco com os nordestinos e seu filho dá coice nas mulheres. O blog nem vai falar em bater no marreco, porque quem tem a primazia da piada pronta é o mestre José Simão. Mas que hoje Bolsonaro tem um comportamento eleitoral de quem vai para a panela, tem.
O interessante é que o Centrão descobriu que um presidente que age como um pato pateta é muito mais valioso do que o pato manco. O pato pateta não tem projeto para seu lago. Ele simplesmente quer tumultuar o galinheiro, destruir o estábulo, tocar o terror na fazenda… Já o pato manco, por mais frágil que seja, tem um projeto de construção e não de destruição. Pode estar frágil, mancando, mas não chega ao ponto de entregar a chave do cofre.
Hoje, o Centrão observa as estripulias do pato pateta. Mantém o apoio, mas não hesitará em jogar lenha na fogueira para o assar o pato. Depois, lógico, de concluir a colheita na fazenda.
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G1

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