Documentos do Conselho de Controle de Atividades Financeiras revelam que o banco de Daniel Vorcaro e a empresa controlada pelos irmãos Batista transferiram valores milionários a empresa de consultoria que fez pagamentos a filho de Kássio Nunes Marques; movimentação levanta suspeitas em meio à Operação Compliance Zero.

Ana Beatriz Publicado em 19/03/2026, às 14h34
Documentos do Coaf revelam que o Banco Master e a JBS transferiram R$ 18 milhões a uma consultoria que pagou ao filho do ministro do STF, Kássio Nunes Marques, entre 2024 e 2025, levantando suspeitas de fraude financeira em um dos maiores escândalos do Brasil.
O Banco Master, liquidado pelo Banco Central, transferiu R$ 6,6 milhões, enquanto a JBS enviou R$ 11,3 milhões à consultoria, que declarou apenas R$ 25,5 mil em receita, indicando possíveis irregularidades e movimentações financeiras incompatíveis.
As investigações da Operação Compliance Zero, que já resultaram em prisões e bloqueios de bens, agora se concentram nas transferências milionárias e na relação entre a consultoria e o filho do ministro, com especialistas alertando para indícios de lavagem de dinheiro e corrupção.
Documentos do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) revelam que o Banco Master e a empresa JBS, controlada pelos empresários Joesley e Wesley Batista, repassaram R$ 18 milhões a uma empresa de consultoria que realizou pagamentos ao filho do ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), Kássio Nunes Marques, em um período de pouco mais de um ano. As transações ocorreram entre agosto de 2024 e julho de 2025 e foram identificadas em relatórios feitos pelo Coaf no âmbito das investigações relacionadas ao escândalo do Banco Master, considerado um dos maiores casos de fraude financeira em curso no país.
Segundo os registros financeiros analisados, o Banco Master, instituição que estava sob o comando do empresário Daniel Vorcaro antes de sua liquidação extrajudicial pelo Banco Central e das sucessivas fases da Operação Compliance Zero, transferiu R$ 6,6 milhões para essa consultoria. No mesmo período, a JBS, gigante do agronegócio com atuação global, enviou outros R$ 11,3 milhões à mesma empresa. Os valores correspondem à totalidade do faturamento declarado pela consultoria no período, que registrou apenas R$ 25,5 mil em receita oficial, segundo dados fiscais.
Quem é o beneficiário
O destinatário final dos pagamentos, o filho do ministro Kássio Nunes Marques, não teve sua identidade divulgada oficialmente pelas autoridades, mas a ligação foi confirmada nos documentos de movimentação analisados pelo Coaf. Os pagamentos foram feitos a partir da consultoria, que, apesar de apresentar um faturamento muito inferior aos valores recebidos, atuou como centro de repasse financeiro para o beneficiário. A natureza exata dos serviços prestados não está clara, e a discrepância entre os valores recebidos e as receitas declaradas é apontada por especialistas como um potencial indício de movimentação incompatível com a atividade econômica da consultoria.
A relação entre a consultoria e o filho do ministro, ligada a transferências vultosas provenientes de grandes empresas com interesses empresariais e econômicos estratégicos, acendeu o alerta de investigadores que acompanham a Operação Compliance Zero. Entre as áreas de atuação investigadas estão possíveis delitos como lavagem de dinheiro, corrupção e favorecimento indevido em estruturas de alto poder financeiro e político.
Contexto do Banco Master
O Banco Master foi alvo da Operação Compliance Zero, desencadeada pela Polícia Federal, que investiga um esquema considerado um dos maiores escândalos financeiros da história recente do Brasil, com suspeitas de fraudes, corrupção e manipulação de operações bancárias. O empresário Daniel Vorcaro foi preso em múltiplas fases da operação, e a instituição foi liquidada extrajudicialmente pelo Banco Central após indícios de irregularidades.
Essa investigação já mobilizou autoridades e gerou prisões preventivas, bloqueio de bens e discussão sobre a responsabilidade de figuras do setor financeiro e seu relacionamento com membros do sistema político e judicial.
Repercussões e investigação
As revelações dos documentos do Coaf elevam a complexidade dos desdobramentos da Compliance Zero, pois tratam de movimentações que passam por grandes grupos econômicos e alcançam familiares de um ministro da mais alta corte do país. A ligação entre uma consultoria com receitas reduzidas e repasses milionários vindos de grandes instituições levanta indagações sobre a finalidade das transferências.
Especialistas em direito financeiro e penal ouvidos por jornais especializados afirmam que a discrepância entre as receitas oficiais da consultoria e o montante repassado constitui um “sinal de alerta” típico em investigações de lavagem de dinheiro e repasses ocultos, que podem se dar por meio de “empresa de fachada” para ocultar o beneficiário real dos recursos.
Autoridades da Polícia Federal e do Ministério Público ainda não se manifestaram oficialmente sobre o caso, embora a inclusão desse tipo de movimentação nos relatórios do Coaf tenha impacto direto nas linhas de investigação da Compliance Zero e possa ser usado como base para pedidos de prisão ou bloqueio de outros envolvidos.
O papel da JBS
A JBS, uma das maiores empresas de alimentos do mundo, esteve envolvida em outras grandes polêmicas nos últimos anos, incluindo casos de leniência e investigações sobre práticas corporativas. A participação de recursos da JBS nesse contexto específico amplia o espectro de perguntas sobre a origem, intenção e destino dos repasses e pode atrair atenção de órgãos reguladores e fiscais tanto no Brasil quanto internacionalmente.
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