Processos revelam indícios recorrentes de operações simuladas e uso de estruturas financeiras para distorcer o mercado ao longo de quase uma década.

Redação Publicado em 10/04/2026, às 09h20
A Comissão de Valores Mobiliários (CVM) investiga indícios de manipulação de mercado relacionados ao Banco Master desde 2017, com 314 processos contabilizados, dos quais 14 avançaram para a fase sancionadora, podendo resultar em penalidades.
As investigações revelam um esquema complexo envolvendo manipulação de preços de ativos e operações simuladas, com destaque para a atuação de Daniel Vorcaro e Benjamim Botelho de Almeida, além de irregularidades em empresas como a Reag Capital Holding.
Em resposta ao colapso do grupo Master, a CVM revisa seus mecanismos de fiscalização, reconhecendo falhas na consolidação de informações e na resposta a sinais de risco, enquanto especialistas sugerem que as investigações podem levar a mudanças significativas na regulação do mercado de capitais.
A Comissão de Valores Mobiliários (CVM) identificou indícios consistentes de manipulação de mercado envolvendo estruturas ligadas ao caso do Banco Master desde 2017. Documentos analisados em processos administrativos mostram um padrão de conduta que se repete ao longo dos anos, conectando empresas, fundos e operadores financeiros.
Ao todo, o regulador contabilizou 314 processos relacionados ao ecossistema do banco e entidades associadas. Desses, 14 evoluíram para processos sancionadores — fase mais avançada das investigações, quando há acusação formal e possibilidade de aplicação de penalidades.
As apurações atingem diretamente o entorno do empresário Daniel Vorcaro, apontado como figura central do grupo. No entanto, os documentos indicam que o esquema pode ser mais amplo, envolvendo uma rede de agentes com atuação recorrente em diferentes operações.
Um dos nomes que aparecem de forma reiterada nas investigações é Benjamim Botelho de Almeida, que, segundo a Polícia Federal, atuaria como operador financeiro e sócio oculto de Vorcaro no exterior.
As irregularidades investigadas incluem manipulação de preços de ativos, operações simuladas e estruturas complexas envolvendo debêntures, Certificados de Recebíveis Imobiliários (CRIs) e fundos de investimento. Em alguns casos, há suspeita de que essas operações foram utilizadas para beneficiar grupos específicos em detrimento de investidores.
Outro ponto de atenção está no uso de estruturas conhecidas como “fundos sobre fundos”, além de práticas como “money pass” — mecanismo que simula operações legais para ocultar a origem ou destino de recursos.
A investigação também destaca a atuação de empresas como a Reag Capital Holding, que aparece com frequência nos processos mais recentes. Em um dos casos, a CVM aponta falhas graves de governança, como a ausência de demonstrações financeiras obrigatórias, o que teria impedido o mercado de avaliar a real situação da companhia.
Há ainda indícios de uso de informação privilegiada e negociações em períodos vedados, além de operações que teriam influenciado artificialmente o valor de ativos no mercado.
Os dados reforçam a percepção de que alertas sobre possíveis irregularidades circularam entre diferentes órgãos — como Banco Central, Receita Federal e Ministério Público — ao longo dos anos, mas sem uma integração eficaz que pudesse conter o avanço das práticas.
Diante do colapso do grupo Master, a CVM iniciou uma revisão interna em seus mecanismos de fiscalização. Um grupo de trabalho do órgão concluiu que houve falhas na consolidação de informações e na resposta coordenada aos sinais de risco identificados.
Especialistas avaliam que o avanço das investigações pode abrir caminho para punições relevantes e até mudanças estruturais na regulação do mercado de capitais brasileiro.
As defesas dos citados afirmam que as operações seguem as normas legais e destacam que a inclusão em processos não implica, necessariamente, irregularidades comprovadas.
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