Diário de São Paulo
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Levantamentos sobre crimes no país

Brasil registra menor número de mortes violentas em 13 anos, mas letalidade policial e feminicídios seguem em alta

Anuário Brasileiro de Segurança Pública também registra queda nos estupros, embora especialistas ressaltem a elevada subnotificação dos casos

Levantamento revela redução de 8,2% nas mortes violentas em 2025, mas aponta crescimento da letalidade policial e dos feminicídios - Imagem: Reprodução/Mongkol Nitirojsakul/Getty Images
Levantamento revela redução de 8,2% nas mortes violentas em 2025, mas aponta crescimento da letalidade policial e dos feminicídios - Imagem: Reprodução/Mongkol Nitirojsakul/Getty Images

Julio Cezar Souza Publicado em 23/07/2026, às 10h54


O Brasil registrou, em 2025, o menor número de mortes violentas intencionais desde o início da série histórica do Anuário Brasileiro de Segurança Pública, em 2012. Ao longo do ano, foram contabilizadas 40.775 vítimas, uma redução de 8,2% em relação às 44.220 registradas no ano anterior. Apesar da queda, o levantamento revela que uma em cada seis mortes violentas foi provocada por policiais civis ou militares, índice que continua em crescimento.

Divulgado nesta quinta-feira (23), o anuário reúne dados do Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP) e considera como mortes violentas intencionais os homicídios dolosos, feminicídios, latrocínios, lesões corporais seguidas de morte e mortes decorrentes de intervenções policiais, tanto em serviço quanto fora dele.

A taxa nacional caiu para 19,1 mortes violentas por 100 mil habitantes, representando uma redução de 31% em comparação com 2012. Segundo a pesquisadora do FBSP Raquel Sousa, a principal responsável por essa queda foi a diminuição dos homicídios dolosos, que somaram 32.914 registros no ano passado.

Com isso, o país alcançou uma taxa de 15,4 homicídios por 100 mil habitantes, antecipando em dois anos a meta estabelecida pela Política Nacional de Segurança Pública e Defesa Social para 2027, que previa índice máximo de 16 homicídios por 100 mil habitantes.

Mesmo com o avanço, os dados mostram que o perfil das vítimas permanece praticamente inalterado. Homens representam 90,8% das pessoas assassinadas, enquanto jovens entre 18 e 29 anos respondem por 41,6% dos casos. Pessoas negras correspondem a 79,7% das vítimas, com taxa de mortalidade 3,5 vezes superior à da população branca.

Letalidade policial continua crescendo

Na contramão da queda geral da violência letal, as mortes provocadas por policiais aumentaram pelo segundo ano consecutivo.

Em 2025, foram registradas 6.602 mortes decorrentes de intervenções policiais, crescimento de 5,4% em relação ao ano anterior. O total representa 16,2% de todas as mortes violentas intencionais ocorridas no país, o equivalente a uma média de 18 pessoas mortas por dia em ações policiais.

Enquanto isso, o número de policiais mortos em serviço ou fora dele caiu de 144 para 139 vítimas, redução de 3,5%. Já os suicídios entre agentes de segurança cresceram 37,8% desde 2017, segundo o levantamento.

Para Raquel Sousa, os indicadores mostram que o país precisa avançar no controle do uso da força pelas instituições de segurança pública.

"O país precisa encontrar mecanismos de controle do uso da força mais efetivos, já que tais dados mostram que o Estado, em suas múltiplas esferas e poderes, tem sido parte do problema e não apenas das soluções para a segurança pública brasileira", afirma a pesquisadora no estudo.

Feminicídios batem novo recorde

Outro dado que preocupa especialistas é o crescimento dos feminicídios.

Em 2025, o Brasil registrou 1.571 mulheres assassinadas em razão do gênero, alta de 4% em comparação com o ano anterior. O aumento ocorre apesar da redução de 5,1% no número total de homicídios de mulheres, que caiu de 3.728 para 3.539 casos.

Segundo o Fórum Brasileiro de Segurança Pública, a redução das mortes relacionadas à criminalidade urbana não foi acompanhada pela diminuição da violência doméstica.

Entre as vítimas de feminicídio, 65,1% eram mulheres negras, 56,5% tinham entre 25 e 44 anos e 62,5% foram assassinadas dentro de casa. Em seis de cada dez casos, o autor era um parceiro íntimo da vítima.

O levantamento também identificou crescimento de 5,9% nas tentativas de feminicídio, que totalizaram 4.189 registros em 2025.

Estupros apresentam queda, mas subnotificação preocupa

O anuário também aponta redução nos registros de estupro pela primeira vez desde a pandemia.

Foram contabilizados 84.388 casos em 2025, queda de 5,4% em relação aos 88.843 registrados no ano anterior. Ainda assim, o volume representa, em média, um estupro a cada seis minutos no país.

As crianças continuam sendo as principais vítimas. Segundo o levantamento, 60,3% dos casos envolveram vítimas com até 13 anos de idade, enquanto 27,1% tinham nove anos ou menos.

Apesar da redução, as pesquisadoras do FBSP alertam para a elevada subnotificação. Estudos citados no anuário indicam que apenas uma pequena parcela das vítimas registra oficialmente esse tipo de crime, o que faz com que os números reais sejam significativamente superiores aos registrados pelas autoridades.

Outros destaques do levantamento

  • O Brasil registrou 737.883 mortes violentas nos últimos 14 anos.
  • O Amapá apresentou a maior taxa de mortes violentas do país, com 42,5 casos por 100 mil habitantes.
  • Maranguape (CE) foi apontada como a cidade mais violenta do Brasil, com 100,3 mortes violentas por 100 mil habitantes.
  • O Rio Grande do Norte liderou o crescimento das mortes violentas entre os estados, com aumento de 19,6% em relação ao ano anterior.

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