A promessa de um Memorial dos Aflitos contrasta com o foco na orientalização comercial da região

por Marina Milani
Publicado em 20/11/2024, às 10h04
A Rua dos Aflitos, no bairro da Liberdade, carrega uma história pouco explorada de São Paulo: ela foi o endereço do primeiro cemitério público da cidade, onde eram enterradas pessoas escravizadas, indigentes e executadas na forca. Contudo, o local, que abriga a Capela dos Aflitos, símbolo de resistência e memória, foi ofuscado por décadas pela orientalização comercial e turística da região.
Agora, com a retirada das lanternas japonesas — um marco polêmico instalado nos anos 1970 — e a promessa de um Memorial dos Aflitos, a disputa entre memória negra e o foco na cultura asiática ganha novos contornos.
O Cemitério dos Aflitos funcionou de 1775 a 1858, sendo o local de sepultamento de grupos marginalizados, cujos túmulos foram ignorados pelas reformas urbanas subsequentes. Apesar da Capela dos Aflitos ter sido tombada em 1978, o espaço foi negligenciado, enquanto a Liberdade se consolidava como símbolo da cultura japonesa na capital.
Na década de 1970, as lanternas asiáticas foram instaladas, reforçando a identidade oriental do bairro, em detrimento da história negra e indígena que ali existia. O historiador Wesley Vieira, da União dos Amigos da Capela dos Aflitos (Unamca), aponta que “nada disso é adequado para um cemitério”.
Em 2018, uma obra revelou ossadas de nove pessoas na área, reacendendo debates sobre a preservação da memória negra. O Sítio Arqueológico Cemitério dos Aflitos foi criado pelo Iphan em 2020, durante uma onda global de movimentos antirracistas.
A Prefeitura de São Paulo prometeu construir o Memorial dos Aflitos, integrando a capela, a rua e os achados arqueológicos. No entanto, o projeto enfrenta atrasos, troca de equipes e denúncias de obras clandestinas, enquanto o prazo inicial de entrega, previsto para dezembro de 2023, está longe de ser cumprido.
Enquanto o Memorial aguarda a conclusão, a Rua dos Aflitos ganhou fama como ponto de festas noturnas, apelidada de "Rua do Mijo". A situação reflete o abandono da área, mesmo após as descobertas arqueológicas e a mobilização da Unamca.
A recente proposta da Prefeitura, batizada de Esplanada da Liberdade, promete investir R$ 333 milhões em melhorias para o comércio e o turismo asiático, ignorando o Memorial dos Aflitos. Para Vieira, essa priorização é mais um capítulo no apagamento da memória negra.
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