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Negligência

Grupo de salto clandestino já tinha histórico de acidente grave antes de matar jovem em Limeira

Inquérito revela que falha em equipamento quase matou criança três meses antes da morte de Maria Eduarda de Freitas na Ponte do Esqueleto, em Limeira

Defesas contestam indiciamentos e argumentam que o caso deve ser tratado como crime culposo, sem intenção de matar - Imagem: Reprodução/TV Globo
Defesas contestam indiciamentos e argumentam que o caso deve ser tratado como crime culposo, sem intenção de matar - Imagem: Reprodução/TV Globo

Letícia Sales Publicado em 06/07/2026, às 08h20


Um alerta ignorado pode ter custado uma vida. Três meses antes da jovem Maria Eduarda de Freitas, de 21 anos, morrer durante um salto clandestino de "rope jump" na Ponte do Esqueleto, em Limeira, interior deSão Paulo, o mesmo grupo organizador já havia enfrentado outro acidente grave envolvendo a atividade.

Primeiro sinal de alerta

Em março, uma falha no sistema de debreagem — o mecanismo responsável por travar a corda durante o salto — quase provocou a morte de um menino de nove anos. O garoto se preparava para saltar da estrutura ao lado de uma equipe do grupo "Entre Cordas", que registrava imagens para divulgação da atividade.

Luis Gustavo, funcionário do grupo que saltou junto com a criança, descreveu o instante em que percebeu que algo tinha dado errado. "O garoto foi correndo, eu já fui correndo atrás, ele pulou e eu pulei dando um mortal logo atrás. E aí, eu não ouvi o garotinho, tipo, gritar o 'uhu', que ele sempre gritava, a gente está feliz e tal, e eu comecei a ouvir algumas pessoas gritando o nome dele. E aí, quando eu olhei para o lado ele estava no chão", relatou.

O pai da criança, que também integrava a equipe do grupo, acompanhou o momento do acidente e prestou depoimento à polícia como testemunha do caso.

Tragédia em junho

Mesmo após o incidente, as atividades na ponte seguiram normalmente. Em 13 de junho, Maria Eduarda de Freitas foi arremessada da estrutura sem estar presa à corda de segurança. Ela chegou a ser socorrida, mas não resistiu aos ferimentos. Um vídeo gravado pelo próprio celular da vítima comprovou que ela caiu sem o equipamento de proteção.

Indiciamento e tentativa de encobrir provas

Com a conclusão do inquérito nesta semana, a Polícia Civil indiciou quatro pessoas por homicídio com dolo eventual — quando o agente assume o risco de matar. São eles: Evelyne dos Santos, apontada como líder do grupo, além de Vitor de Freitas, Maicon Cintra e Luis Felipe Egoroff, flagrados nas imagens no momento em que a vítima foi lançada da ponte. Duas outras pessoas detidas inicialmente tiveram a prisão revogada e foram liberadas.

A investigação identificou ainda uma tentativa de ocultar provas nos dois episódios. Testemunhas afirmaram ter visto alguém retirar a câmera que Maria Eduarda usava no momento da queda fatal.

Luis Gustavo confirmou que recebeu ordem direta de Evelyne para recolher o aparelho. "Ela falou: 'Gustavinho, a gente precisa. Traz a câmera, a gente precisa dessa câmera, a gente precisa apagar o vídeo.' Essas foram as palavras", contou.

Uma mensagem de áudio enviada por outra ex-funcionária do grupo indicou que Evelyne fez pedido semelhante logo após o acidente com o menino, em março. Por esse motivo, ela também responderá por fraude processual.

Questionados sobre a falha fatal, Maicon Cintra e Luis Felipe Egoroff admitiram, em depoimento, que a checagem da corda de segurança presa ao corpo da jovem era responsabilidade deles — mas não souberam explicar por que a verificação não foi feita.

Operação sem estrutura

O relatório da polícia apontou que os saltos eram realizados com "significativa desorganização operacional", destacando a ausência de isolamento adequado da área e um número elevado de saltos em curtos intervalos de tempo, o que aumentava o risco de falhas humanas. O grupo "Entre Cordas" atuava de forma clandestina havia mais de um ano, sem qualquer registro formal de empresa.

A Ponte do Esqueleto pertencia à antiga Rede Ferroviária Federal e atualmente está sob custódia da Secretaria do Patrimônio da União. Depois da morte da jovem, o acesso ao local foi bloqueado nas duas extremidades com cercas de arame farpado, placas de aviso, valas e montes de terra, numa tentativa de impedir a presença de novos frequentadores.

O que dizem as defesas

O advogado de Evelyne dos Santos afirmou discordar do indiciamento e informou que as teses de defesa serão apresentadas no momento processual adequado. A defesa de Vitor de Freitas contesta a classificação do crime como dolo eventual. Já os advogados de Maicon Cintra e Luis Felipe Egoroff sustentam que o caso deve ser tratado como crime culposo, sem intenção ou assunção do risco de matar.


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