Três policiais militares vão a júri popular em sessão que deve durar cinco dias; crime aconteceu em novembro de 2024 e expôs elo entre agentes de segurança e o crime organizado

Letícia Sales Publicado em 22/06/2026, às 08h12
Sob forte esquema de segurança, o Tribunal do Júri de Guarulhos abre as portas às 10h desta segunda-feira (22/6) para começar o julgamento de três policiais militares apontados como executores de Antônio Vinícius Lopes Gritzbach. O assassinato do corretor de imóveis, que havia acabado de fechar um acordo de delação premiada, aconteceu em plena luz do dia na calçada do Terminal 2 do Aeroporto Internacional de São Paulo. A expectativa é de que o julgamento, considerado um dos mais emblemáticos da região metropolitana, se estenda até a próxima sexta-feira (26/6).
No banco dos réus estão o cabo Denis Antônio Martins, o soldado Ruan Silva Rodrigues e o tenente Fernando Genauro da Silva. Os três estão detidos no Presídio Militar Romão Gomes. Segundo a denúncia do Ministério Público, Denis e Ruan foram os atiradores que desembarcaram de um Volkswagen Gol e dispararam dez vezes com fuzis contra o corretor. O tenente Fernando é apontado como o motorista do grupo, responsável pela logística de chegada e pela fuga da cena do crime.
As investigações reuniram provas robustas contra os PMs, incluindo dados de GPS, registros de câmeras de monitoramento, análises de sinal de celulares e exames de DNA que confirmaram a presença dos três no local. No tribunal, os jurados vão decidir se o trio cometeu duplo homicídio qualificado — por motivo torpe, perigo comum e recurso que dificultou a defesa das vítimas. Além de Gritzbach, o ataque vitimou o motorista de aplicativo Celso Araújo Sampaio de Novais, atingido por balas perdidas, e feriu Samara Lima de Oliveira e Willian Souza Santos, que sobreviveram e serão ouvidos como testemunhas.
O elo com o crime organizado
Antônio Vinícius Gritzbach atuava como operador financeiro do Primeiro Comando da Capital (PCC), lavando dinheiro da facção por meio de transações imobiliárias e criptomoedas. A relação azedou quando a cúpula do grupo passou a desconfiar de desvios de valores feitos pelo corretor. Dias antes de ser assassinado, ele havia iniciado um processo de delação premiada com o Ministério Público, onde revelava esquemas de lavagem de dinheiro e detalhava uma rede de corrupção envolvendo policiais civis e integrantes da organização criminosa.
A Promotoria também liga a morte do corretor a uma vingança interna: ele era acusado pelo PCC de ser o mandante dos assassinatos de dois membros históricos da facção: Anselmo Becheli Santa Fausta, o "Cara Preta", e Antônio Corona Neto, o "Sem Sangue". Gritzbach sempre negou formalmente qualquer envolvimento nessas mortes.
Foragidos e os próximos passos do júri
A caçada aos envolvidos gerou uma megaoperação. Até agosto de 2025, as forças de segurança haviam prendido 26 suspeitos correlacionados às investigações do caso, entre eles 17 policiais militares e 5 civis. No entanto, o júri desta semana foca exclusivamente no núcleo que puxou o gatilho.
Outros três suspeitos de arquitetar e monitorar a emboscada continuam foragidos e com os nomes incluídos na Difusão Vermelha da Interpol. Kauê do Amaral Coelho, o "Jubileu", apontado como o "olheiro" que avisou os atiradores sobre o desembarque de Gritzbach, e Emílio Carlos Gongorra Castilho, o "Cigarreira", acusado de ser um dos mandantes, tiveram seus processos suspensos por não apresentarem defesa após citação por edital. O terceiro envolvido, Diego dos Santos Amaral, o "Didi", responderá em um processo desmembrado.
O cronograma do Tribunal de Justiça de São Paulo (TJSP) prevê uma maratona jurídica. Neste primeiro dia, o plenário ouve os sobreviventes e as testemunhas da acusação, que incluem delegados e peritos. Na terça-feira (23/6), será a vez das testemunhas de defesa e do interrogatório dos três réus. O restante da semana será dedicado aos debates entre promotores e advogados, culminando no voto do conselho de sentença e na leitura da sentença pelo juiz.
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