Símbolo de uma geração e criação brasileira, os aparelhos entram em processo de retirada após o fim das concessões da telefonia fixa

Lívia Gennari Publicado em 25/01/2026, às 10h11
Por décadas, eles estiveram nas esquinas, em frente a bares, pontos de ônibus e praças movimentadas. Silenciosos hoje, mas essenciais no passado, os orelhões entram em seus últimos anos de existência no Brasil. A partir deste mês, os telefones públicos começam a ser retirados das ruas, encerrando um serviço que moldou a comunicação urbana no país.
A desativação ocorre após o término das concessões da telefonia fixa, encerradas no ano passado. Sem contratos vigentes que garantam a manutenção dos equipamentos, a retirada passa a ser autorizada pela Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel), que ainda contabiliza cerca de 38 mil aparelhos espalhados pelo território nacional.
O processo, no entanto, não será uniforme em todo o país. Em janeiro, começou a remoção em larga escala de carcaças e equipamentos fora de operação. Já os aparelhos em funcionamento deverão ser preservados apenas em localidades onde não há cobertura de telefonia móvel, e mesmo assim, de forma temporária. A previsão é que esses últimos orelhões sejam mantidos somente até 2028.
Do auge à memória
Os números ajudam a dimensionar a queda do serviço. Em 2020, o Brasil ainda contabilizava cerca de 202 mil telefones públicos nas ruas. Hoje, pouco mais de 33 mil seguem ativos, enquanto aproximadamente 4 mil estão em manutenção, segundo dados da Anatel. Na capital paulista, restam ainda cerca de 5 mil aparelhos.
A popularização dos celulares transformou o orelhão em um recurso quase esquecido, acionado apenas em situações pontuais de emergência. O contraste com o passado é evidente: no auge da telefonia pública, o país chegou a ter cerca de 1,5 milhão de aparelhos distribuídos pelas cidades, em um período em que possuir um telefone fixo em casa era um privilégio restrito a poucos.
A história por trás do símbolo da comunicação
Mais do que um equipamento urbano, o orelhão representou uma revolução na forma de se comunicar. Com o uso de fichas e, posteriormente, cartões telefônicos, era possível ligar para familiares ou fazer chamadas de longa distância.
O formato icônico e o próprio nome são exclusividades brasileiras. Lançado em 1972, o design em forma de concha foi criado pela arquiteta sino-brasileira Chu Ming Silveira. O ritual de usar o aparelho também deixou marcas na linguagem popular: ao fim da ligação, a ficha caía, dando origem à expressão “caiu a ficha”, usada até hoje para definir momentos de surpresa.
Curiosamente, o orelhão voltou aos holofotes culturais justamente quando se aproxima de sua despedida definitiva. A invenção brasileira ganhou destaque internacional ao estampar o pôster principal do filme O Agente Secreto, de Kleber Mendonça Filho, vencedor de dois Globos de Ouro, reacendendo o interesse pelo aparelho que atravessou gerações.
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