Auto-homenagens em instituições, políticas públicas e projetos oficiais geram críticas e acendem alerta sobre os limites da democracia americana

Manoela Cardozo Publicado em 24/12/2025, às 10h48
Em menos de um ano desde que reassumiu a presidência dos Estados Unidos, Donald Trump passou a adotar uma prática incomum na política do país: batizar com o próprio nome iniciativas oficiais, instituições históricas e até equipamentos militares. A estratégia, vista por analistas como uma tentativa explícita de marcar território político e simbólico, tem provocado controvérsia dentro e fora do país.
A lista de auto-homenagens cresce rapidamente. A mais recente envolve o anúncio de uma nova classe de navios de guerra da Marinha americana que levará o nome Trump, rompendo uma tradição secular de homenagear figuras históricas já falecidas. Antes disso, o presidente determinou a mudança do nome do tradicional Kennedy Center, em Washington, para incluir seu sobrenome, decisão que gerou forte reação de setores culturais, historiadores e parlamentares democratas.
Segundo o cientista político Maurício Santoro, colaborador do Centro de Estudos Político-Estratégicos da Marinha do Brasil, esse comportamento não encontra paralelo na história democrática dos Estados Unidos. Para ele, trata-se de uma ruptura com acordos informais de bom senso que sempre funcionaram como freios simbólicos ao poder presidencial. A prática, avalia, testa os limites institucionais e reforça a personalização extrema do governo.
Além do campo cultural e militar, Trump também levou seu nome a áreas sensíveis da política externa. O Instituto de Paz dos Estados Unidos, entidade independente financiada pelo Congresso, passou a se chamar Instituto da Paz Donald Trump, decisão criticada por analistas como um ataque à autonomia institucional. Já o acordo que encerrou o conflito entre Israel e Hamas na Faixa de Gaza foi oficialmente apresentado como Plano de Paz de Trump, reforçando o protagonismo pessoal do presidente em um tema internacional de grande complexidade.
Especialistas apontam que o contexto político ajuda a explicar o movimento. Trump voltou à Casa Branca após uma derrota eleitoral em 2020, que nunca reconheceu publicamente, e após se tornar o primeiro ex-presidente americano condenado em um processo criminal. Para Santoro, o segundo mandato é marcado por uma tentativa de reafirmação e de construção de um legado imediato, ainda em vida, algo raro em democracias consolidadas.
A Constituição americana não impede que um presidente dê seu próprio nome a políticas ou instituições, lacuna que Trump tem explorado. Diferentemente do Brasil, onde a legislação proíbe esse tipo de prática como herança do período autoritário, nos Estados Unidos a contenção sempre dependeu mais da tradição do que de normas explícitas.
O movimento também se estende ao campo simbólico e estrutural. Trump autorizou a construção de um novo e grandioso salão de festas na Casa Branca, avaliado em cerca de 250 milhões de dólares, visto por analistas como uma tentativa de deixar um marco físico de seu governo. Paralelamente, promoveu um desfile militar em Washington coincidindo com seu aniversário e lançou as chamadas Contas Trump, um programa de incentivo financeiro para crianças recém-nascidas, novamente associado diretamente à sua imagem.
Para analistas, o conjunto dessas ações reforça a percepção de que a democracia americana enfrenta um período de tensão institucional, marcado pela ascensão de uma política centrada no carisma e na figura do líder. Com maioria no Congresso e influência significativa sobre a Suprema Corte, Trump enfrenta poucos obstáculos formais, o que amplia o desafio da oposição democrata em conter avanços considerados excessivos.
Entre a população, cresce a sensação de desconforto com a personalização do Estado. Para críticos, o risco é que símbolos nacionais e instituições históricas deixem de representar valores coletivos e passem a refletir interesses individuais, abrindo um precedente delicado para o futuro da política americana.
Leia também

A vitrine de Paris e a invenção do homem moderno

O fim da Ordem Mundial: 2026 e o retorno do "cada um por si"

Produtora de “Dark Horse” contratou filha de Edir Macedo em evento financiado pela Prefeitura de São Paulo

Trocas de tiros em Paraisópolis deixam homem ferido e atingem ônibus na Zona Sul de São Paulo

Homem agride mulher em via pública e tenta colocá-la à força em carro na Zona Norte de São Paulo

Governo Tarcísio mantém sob sigilo documentos que justificam custo extra de R$ 3,7 bilhões no Metrô de SP

O dólar e a erosão da confiança

Nikolas cita caso Vorcaro, critica oposição e volta a defender redução da maioridade penal

Quaest: Lula amplia vantagem sobre Flávio Bolsonaro e abre distância fora da margem de erro

Pesquisa aponta que 67% dos brasileiros perderam poder de compra no último ano