Departamento do Tesouro americano mira rede que teria movimentado mais de US$ 30 milhões usando criptomoedas; caso envolve empresa investigada no escândalo de patrocínio do Corinthians

Letícia Sales Publicado em 01/07/2026, às 13h52
O Departamento de Tesouro dos Estados Unidos sancionou, nesta quarta-feira (1º/7), dois brasileiros, três empresas brasileiras e uma empresa portuguesa, todos apontados como integrantes de uma rede de lavagem de dinheiro ligada ao Primeiro Comando da Capital (PCC). A medida marca a primeira sanção aplicada pelos EUA por vínculo com a facção desde que o grupo passou a ser oficialmente classificado como organização terrorista pelo país.
Os dois brasileiros sancionados são Victor Henrique de Oliveira Shimada e Stella Stefanie Nunes Henrique de Oliveira. Já entre as empresas atingidas pela medida estão a Victory Trading Intermediação de Negócios Cobranças e Tecnologia Ltda, a Pixwave Soluções de Pagamentos Ltda, a Wave Construções Inteligentes Ltda e a portuguesa Avenidas Flutuantes Unipessoal Lda.
A decisão determina o bloqueio de todos os bens e ativos dos sancionados que estejam sob jurisdição americana. Cidadãos e empresas dos Estados Unidos ficam proibidos de realizar qualquer tipo de negócio com os envolvidos, e instituições financeiras estrangeiras que efetuarem transações relevantes com eles também podem ser alvo de sanções secundárias. A apuração que embasou a decisão foi conduzida em conjunto pelo FBI, pelo Departamento de Justiça dos EUA (DOJ) e por uma força-tarefa do Departamento de Segurança Interna (DHS).
Esquema de lavagem via criptomoedas
De acordo com o comunicado divulgado pelas autoridades americanas, Shimada atuava como elo entre operadores do PCC na Flórida e traficantes internacionais. Segundo a investigação, ele teria lavado mais de US$ 30 milhões provenientes de atividades criminosas registradas em diversas cidades dos Estados Unidos, usando criptomoedas para transferir os recursos ao Brasil.
Conexão com o escândalo da Vai de Bet no Corinthians
Victor Shimada é sócio da Victory Trading, uma das empresas agora sancionadas, que já era investigada por suposto envolvimento em um esquema de lavagem de dinheiro relacionado ao Corinthians, por meio do contrato de patrocínio com a casa de apostas Vai de Bet. A empresa é apontada como parte central das investigações sobre o escândalo, que apura se o vínculo comercial com o clube paulista teria sido usado para movimentar recursos ilícitos.
Embora o comunicado do governo americano não cite nominalmente o Corinthians, o texto recorda que Shimada, dono da Victory Trading, foi preso em janeiro de 2025 pela Polícia Federal por lavar dinheiro ilícito de um clube de futebol brasileiro em um esquema fraudulento de patrocínio. Segundo o documento oficial, "Victory foi usada para lavar dinheiro roubado de um clube de futebol brasileiro em um esquema de fraude publicitária".
De acordo com inquérito conduzido pelo Departamento de Polícia de Proteção à Cidadania (DPPC), a empresa teria repassado R$ 200 mil à UJ Football Talent Intermediação, valor que teria sido posteriormente direcionado à Neoway Soluções, supostamente registrada em nome de um laranja.
Já Stella Stefanie Nunes Henrique de Oliveira é apontada pelas autoridades como secretária e colaboradora de Shimada, responsável por organizar a logística de recolhimento de dinheiro em espécie dentro do esquema investigado.
PCC e Comando Vermelho como organizações terroristas
A sanção desta quarta-feira é um desdobramento direto de uma decisão tomada em 5 de junho, quando o governo de Donald Trump classificou oficialmente o PCC e o Comando Vermelho (CV) como Organizações Terroristas Estrangeiras (FTO, na sigla em inglês). O enquadramento, assinado pelo secretário de Estado americano, Marco Rubio, alterou de forma significativa o status jurídico das duas facções perante a comunidade internacional.
Com a designação oficial como FTOs, PCC e CV deixaram de ser tratados pela inteligência americana apenas como gangues criminosas locais ou cartéis de narcotráfico. A mudança concede ao governo dos Estados Unidos poder de persecução global consideravelmente mais amplo, permitindo a mobilização de agências de segurança nacional para rastrear, sufocar e neutralizar as redes operacionais das duas organizações fora do território brasileiro.
Além de viabilizar o cerco financeiro — como o aplicado nesta quarta-feira —, a designação ativa um rigoroso dispositivo penal contra qualquer indivíduo ou empresa que preste apoio às facções. O enquadramento na Lei de Imigração e Nacionalidade dos EUA (INA) também impõe severas restrições de mobilidade e imigração a lideranças e membros cadastrados de ambos os grupos: qualquer cidadão estrangeiro comprovadamente vinculado ao PCC ou ao CV tem o visto americano cancelado e passa a ser considerado legalmente inadmissível em solo americano, com deportação imediata prevista para os casos em que já estejam em território dos Estados Unidos.
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