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COMÉRCIO EXTERIOR

Tarifaço dos EUA reacende debate sobre dependência do Brasil em relação à China

Especialistas avaliam que país asiático deve absorver apenas parte das exportações afetadas pelas novas tarifas americanas

Especialistas acreditam que o tarifaço pode acelerar a diversificação das exportações brasileiras em busca de novos mercados - Imagem: Reprodução/ Ricardo Stuckert/Presidência da República
Especialistas acreditam que o tarifaço pode acelerar a diversificação das exportações brasileiras em busca de novos mercados - Imagem: Reprodução/ Ricardo Stuckert/Presidência da República

Letícia Sales Publicado em 19/07/2026, às 08h24


O novo tarifaço imposto pelos Estados Unidos sobre produtos brasileiros tem levado empresas a olhar com mais atenção para outros mercados, na tentativa de reduzir a dependência do consumidor americano. Nesse contexto, a China desponta como alternativa natural — afinal, é hoje o principal destino das exportações brasileiras. Mas, segundo analistas ouvidos pela reportagem, o país asiático está longe de representar uma solução completa para o problema.

Diferença de perfil dificulta migração

O Brasil vendeu à China US$ 99,94 bilhões (cerca de R$ 512 bilhões) no ano passado, segundo o Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC) — mais que o dobro do valor exportado aos Estados Unidos, que somou US$ 37,7 bilhões (R$ 192,7 bilhões) no período. Já no primeiro semestre de 2026, as vendas ao mercado chinês bateram recorde, somando US$ 58,32 bilhões (R$ 299 bilhões), alta de 21,9% frente ao mesmo intervalo do ano anterior.

Os números, no entanto, escondem uma limitação estrutural. Enquanto os EUA compram principalmente aeronaves, máquinas, equipamentos e produtos siderúrgicos transformados, as importações chinesas seguem concentradas em commodities: soja, petróleo bruto, minério de ferro e carnes respondem por quase 90% do que o Brasil vende à China.

"Quando existe excedente de produção, as empresas buscam novos mercados. A China é um grande mercado, mas eu não acredito que somente o tarifaço vá provocar alguma mudança nisso", afirma Rodrigo Giraldelli, especialista em comércio China-Brasil e CEO da China Gate. "O que entra nesse tarifaço são, basicamente, produtos manufaturados, máquinas, equipamentos e esse tipo de coisa. E, nesse caso, a China produz muito e exporta justamente esse tipo de produto."

Wagner Pagliato, coordenador dos cursos de Administração e Ciências Contábeis da Unicid, reforça o diagnóstico: "Um fabricante brasileiro que perder mercado nos EUA nem sempre consegue redirecionar sua produção para a China. Isso ocorre apenas parcialmente e varia conforme o setor."

Para Vera Kanas, especialista em comércio internacional, o obstáculo é ainda mais específico: "A pauta exportadora brasileira para a China é restrita a poucas commodities, como minério de ferro e soja. Além disso, muitas das commodities que o Brasil exporta para a China não foram atingidas pelas tarifas impostas recentemente."

O que aconteceu na primeira leva de tarifas de Trump

A experiência do primeiro tarifaço americano, ainda sob o governo Trump, mostrou que parte das empresas brasileiras conseguiu se reorganizar — mas sem substituição total do mercado perdido. De acordo com o Boletim Regional do Banco Central, divulgado em dezembro de 2025, as vendas ao mercado americano recuaram 6,7% em 2025, de US$ 40,4 bilhões para US$ 37,7 bilhões, enquanto as exportações para outros países cresceram de US$ 296,7 bilhões para US$ 310,6 bilhões.

Entre agosto e novembro de 2025, período mais crítico das tarifas, produtos como petróleo, aviões, semiacabados de ferro e aço, café, carne bovina, sucos de frutas e celulose registraram queda nas vendas aos EUA — compensada, em parte, pelo aumento das exportações para outros destinos.

Barreiras próprias do mercado chinês

Além da diferença de perfil exportador, a China impõe suas próprias restrições. Há cotas tarifárias para produtos agropecuários, exigências sanitárias e regras específicas para habilitação de exportadores. Desde janeiro de 2026, o país aplica cotas de importação e sobretaxas sobre a carne bovina brasileira, com limite anual inicial de 1,1 milhão de toneladas — o volume excedente é taxado em 55%.

Como Brasil e China não têm acordo de livre comércio, os produtos brasileiros seguem sujeitos a tarifas de importação que variam conforme a classificação do item. Commodities estratégicas, como a soja (cerca de 3%) e o minério de ferro (0%), têm alíquotas baixas ou nulas, enquanto produtos industrializados enfrentam taxas mais altas.

Desaceleração chinesa é outro fator de cautela

O momento da economia chinesa também pesa contra uma migração mais agressiva. No segundo trimestre de 2026, o PIB do país cresceu 4,3%, ritmo inferior ao início do ano e abaixo da meta do governo. A China ainda enfrenta crise prolongada no setor imobiliário, consumo doméstico fraco e excesso de capacidade industrial.

"A economia chinesa continua crescendo, mas em ritmo menor do que no passado. Os dados recentes mostram crescimento sustentado principalmente pelas exportações e pela indústria, enquanto o consumo doméstico permanece fraco e o setor imobiliário continua enfrentando dificuldades", diz Pagliato. "A China continua sendo um mercado enorme e essencial para o Brasil, mas apostar em uma dependência ainda maior aumenta a vulnerabilidade brasileira a uma eventual desaceleração mais forte da economia chinesa."

Novos setores abrem oportunidades

Apesar dos obstáculos, especialistas enxergam brechas na mudança de estratégia econômica da China. O 15º Plano Quinquenal (2026-2030) prioriza setores como inteligência artificial, semicondutores, veículos elétricos, biotecnologia e transição energética — o que deve ampliar a demanda por minerais críticos como níquel, cobre, grafite e terras raras, recursos abundantes no território brasileiro.

Os investimentos chineses no Brasil também têm mudado de direção, concentrando-se em energia renovável, mineração e mobilidade elétrica. Em 2025, o país recebeu US$ 6,1 bilhões em investimentos produtivos chineses, tornando-se o principal destino global desse capital, segundo o Conselho Empresarial Brasil-China (CEBC).

Para os especialistas, o efeito mais provável do tarifaço não é o aumento da dependência da China, mas a aceleração de um movimento mais amplo de diversificação. "O tarifaço vai acelerar uma mudança permanente na geografia das exportações brasileiras, seja pela busca mais ativa por novos mercados, seja pela negociação de acordos de livre comércio", avalia Vera Kanas, que cita as negociações do Mercosul com Japão, Canadá e Singapura, além do acordo com a União Europeia, fechado no ano passado após 25 anos de negociações.


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