Doenças evitáveis e contaminação por mercúrio continuam matando crianças em território indígena

Gabriela Nogueira Publicado em 15/10/2025, às 19h26
Um relatório do Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef), em parceria com a Hutukara Associação Yanomami (HAY), revela a grave situação vivida por crianças e adolescentes do povo Yanomami em decorrência da invasão garimpeira em suas terras. Entre 2019 e 2022, período de maior expansão da atividade ilegal, foram registradas ao menos 570 mortes de crianças por doenças evitáveis, como desnutrição, malária, pneumonia e infecções parasitárias.
A mineração irregular tem provocado impactos profundos, como contaminação dos rios por mercúrio e ocupação de áreas usadas para caça e cultivo, o que afeta diretamente a segurança alimentar das comunidades. A deterioração do sistema de saúde agrava o quadro, deixando famílias sem atendimento básico.
Com cerca de 31 mil habitantes distribuídos em 390 comunidades, os Yanomami vivem na maior terra indígena do Brasil, que se estende por Roraima e Amazonas. Diante da emergência, o governo federal declarou estado de calamidade em saúde pública em 2023 e intensificou operações contra o garimpo, com mais de 7,4 mil ações realizadas. O número de profissionais de saúde na região triplicou, mas os desafios permanecem.
Segundo a antropóloga Ana Maria Machado, coautora do relatório, o garimpo cria um “ciclo vicioso de adoecimento”. “Onde há garimpo, há malária”, resume. A destruição ambiental reduz o acesso a alimentos e contribui para o avanço da fome e da desnutrição.
Os dados de 2022 apontam que mais da metade das 4,2 mil crianças acompanhadas pela Vigilância Alimentar e Nutricional apresentava baixo peso. Nos últimos quatro anos, foram identificados 21 mil casos de malária em crianças de até cinco anos, com 47 mortes — número sete vezes superior ao registrado no período anterior. Doenças respiratórias também seguem em alta: 187 crianças morreram entre 2018 e 2022.
A contaminação dos rios Uraricoera, Parima, Catrimani e Mucajaí por mercúrio — usado ilegalmente na extração de ouro — é outro alerta. Laudo da Polícia Federal mostra concentrações até 8.600% acima do limite seguro para consumo humano, com riscos severos para o sistema nervoso, especialmente em crianças.
O relatório também denuncia abusos e exploração de jovens Yanomami por garimpeiros, que usam dinheiro e alimentos para cooptar adolescentes. Casos de violência sexual contra meninas foram documentados.
Intitulado “Infância e Juventude Yanomami: O que significa ser criança e os desafios urgentes na Terra Indígena Yanomami”, o estudo mostra que 75% da população tem menos de 30 anos, proporção muito superior à média nacional. O dado reforça a urgência de políticas públicas voltadas à juventude indígena.
Apesar do cenário crítico, o documento destaca aspectos positivos da vida nas aldeias, como a forte integração comunitária e transmissão de saberes tradicionais. No entanto, a convivência entre tradição e pressões externas tem exigido novas formas de resistência.
A Unicef e a HAY defendem que a proteção territorial e o diálogo direto com as comunidades são essenciais para garantir o futuro das crianças Yanomami. O estudo conclui que investir em educação, saúde e preservação cultural é fundamental para romper o ciclo de vulnerabilidade imposto pela invasão garimpeira.
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