
por Marcus Vinícius De Freitas
Publicado em 31/07/2025, às 08h53
A imposição de tarifas de 50% por parte do presidente Donald Trump sobre produtos brasileiros representa é um ataque frontal à capacidade do Brasil de projetar-se como parceiro relevante no sistema internacional. Essa tarifa, sob o pretexto de proteger a indústria norte-americana, configura, na verdade, uma tentativa de transferência de riqueza do Sul Global para o Norte Global — mecanismo típico de uma geoeconomia imperial que, ao enfrentar seus próprios fracassos domésticos, busca nos demais a compensação para sua estagnação.
A diplomacia brasileira parece ter perdido sua capacidade de interlocução com seus homólogos norte-americanos. O distanciamento da arena diplomática tem cobrado um preço alto, e a politização da relação bilateral, especialmente com a utilização simbólica da figura do ex-presidente Jair Bolsonaro, contribui para que certos setores brasileiros — em um ato de alienação nacional — celebrem medidas punitivas contra o próprio país.
Diante desse cenário, o que deveria o Brasil fazer?
Primeiramente, é preciso utilizar os ativos estratégicos com inteligência. Um dos principais ativos brasileiros está na área dos minerais críticos, especialmente as chamadas terras raras — fundamentais à indústria de alta tecnologia e a transição energética. O Brasil poderia propor um acordo com os Estados Unidos, estabelecendo regras para a aquisição e processamento desses minerais, com contrapartidas claras de acesso ao mercado norte-americano para produtos industrializados brasileiros. Caso isso não seja possível, o Brasil deveria aprofundar imediatamente as negociações com a China, maior refinadora mundial de terras raras, oferecendo condições preferenciais e reforçando o recado a Washington: se não houver cooperação, haverá alternativas — e elas serão geoestratégicas. E pode, ainda, oferecer, para a resolução efetiva da questão institucional, oportunidades no exterior para aqueles agentes do Estado que são considerados um problema de impacto econômico para o País.
Em segundo lugar, a questão da segurança e da soberania nacional deve ser recolocada na agenda. A Amazônia, frequentemente tratada por interesses externos como patrimônio da humanidade, corre o risco de se tornar o próximo pretexto para intervenções veladas, à semelhança do discurso outrora feito sobre a Groenlândia. O Brasil precisa investir urgentemente em capacidades militares autônomas — e isso significa buscar equipamentos de defesa de origem não norte-americana, diversificando fornecedores e reduzindo a dependência estratégica. O anúncio de um incremento na aquisição de equipamentos militares de outras fontes seria um importante recado a Trump. Não se trata de militarizar o discurso, mas de garantir que o país tenha os meios para proteger seu território diante de ameaças explícitas ou disfarçadas.
Em terceiro lugar, o presidente Lula deveria já ter empreendido uma ofensiva diplomática global, articulando países do Sul Global que também sofrem sanções unilaterais norte-americanas. Mais do que provocar Trump — o que, de todo modo, não surtiria efeito —, o Brasil deve agir com inteligência estratégica, engajando os fóruns multilaterais, recorrendo à OMC e usando as redes de lobby empresarial nos EUA para fazer valer seus interesses.
O episódio também expõe uma fragilidade política interna: há setores no Brasil que, por pura adesão ideológica aos Estados Unidos, sugerem que o país deveria abandonar o BRICS — como se a única alternativa possível à multipolaridade fosse a submissão a uma ordem centrada em Washington. Mas quem se opõe ao BRICS+ propõe exatamente o quê? O retorno ao papel de anão diplomático, incapaz de exercer voz autônoma? Submissão não é estratégia — é capitulação. A multipolaridade, ao contrário, oferece ao Brasil a chance de negociar com base em interesses e não em lealdades subalternas.
Um país com as dimensões, os recursos e a história do Brasil precisa se afirmar como sujeito, e não objeto, das relações internacionais. O grau de improvisação institucional revela uma fragilidade preocupante. No entanto, em vez de paralisia, essa carência deve provocar mobilização: é possível, mesmo no curtíssimo prazo, formar forças-tarefa compostas por diplomatas experientes, especialistas em comércio internacional, acadêmicos e representantes do setor produtivo para delinear uma resposta coordenada. O que falta não é inteligência técnica, mas vontade política e articulação institucional.
Diante disso, o Brasil deve recorder-se de uma lição elementar das relações com grandes potências: como advertiu Henry Kissinger, “ser inimigo dos Estados Unidos pode ser perigoso, mas ser amigo é fatal.” O protecionismo de Trump é um teste não apenas para a política externa brasileira, mas para o próprio projeto de país que desejamos construir: submisso ou soberano, periférico ou protagonista.

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