
por Marcus Vinícius De Freitas
Publicado em 18/12/2024, às 07h08
O declínio dos Estados Unidos como liderança incontestável da ordem global é um processo longo e gradual, marcado por erros estratégicos, crises internas e políticas que corroem, lentamente, sua credibilidade internacional. A renúncia de Richard Nixon, em 1974, após o escândalo de Watergate, foi um ponto de inflexão ao expor fissuras profundas na imagem dos Estados Unidos como modelo de moralidade administrativa e democrática. O abuso de poder presidencial passou a simbolizar uma subversão dos valores que os norte-americanos, historicamente, afirmaram defender.
Nas décadas seguintes, as intervenções de Ronald Reagan na Nicarágua, El Salvador e Líbano evidenciaram o pragmatismo geopolítico norte-americano em detrimento do respeito à soberania dos povos, enfraquecendo a confiança internacional em sua liderança moral. A retórica da Guerra Fria ainda justificava tais ações, mas as consequências a longo prazo foram desastrosas.
Com o fim da Guerra Fria, George H. W. Bush vislumbrou uma “nova ordem mundial”. Contudo, a falta de uma estratégia coerente para o mundo pós-soviético revelou-se uma oportunidade desperdiçada. A União Soviética ruiu por problemas domésticos – corrupção, estatismo e a incapacidade de competir com o capitalismo. O “momento unipolar” americano, longe de consolidar a estabilidade global, trouxe uma hegemonia frágil e questionável. Nos anos 1990, os escândalos sexuais envolvendo Bill Clinton e Monica Lewinsky minaram a integridade simbólica dos Estados Unidos, levando ao questionamento da liderança moral americana e à comparação com as “repúblicas de bananas” latino-americanas.
O governo de George W. Bush aprofundou esse desgaste ao invadir o Iraque, em 2003, sob a falsa alegação de armas de destruição em massa. O episódio foi um divisor de águas: além de desestabilizar o Oriente Médio, causou milhares de mortes e desacreditou os Estados Unidoscomo promotores da democracia e da paz. A crise financeira global de 2008, produto da especulação irresponsável em Wall Street, consolidou a fragilidade do modelo econômico norte-americano. O dólar, embora mantido como moeda de reserva global, permaneceu nessa posição não por mérito próprio, mas pela ausência de alternativas viáveis, como o Euro, que enfrentou sua própria crise nos anos seguintes.
A administração de Barack Obama trouxe esperança pela representatividade histórica, mas falhou em momentos cruciais. O recuo na “linha vermelha” síria, em 2013, após o uso de armas químicas, revelou indecisão e comprometeu a confiança dos aliados. A ausência de liderança permitiu o agravamento de um conflito devastador com graves crises humanitárias.
Com Donald Trump, os Estados Unidos adotaram um isolacionismo sem precedentes. A saída do Acordo de Paris e a escalada do protecionismo comercial, com tarifas elevadas, enfraqueceram alianças e fragmentaram a ordem global. Apesar disso, a tentativa de diálogo com a Coreia do Norte demonstrou uma predisposição inédita ao diálogo, ainda que efêmera.
Sob Joe Biden, os equívocos estratégicos se intensificaram. A retirada caótica do Afeganistão simbolizou o fracasso de duas décadas de intervenção. Na Ucrânia, a guerra se prolonga sem soluções diplomáticas viáveis, desgastando a Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN) e aumentando a possibilidade de vitória russa. A postura incondicional de apoio a Israel na guerra de Gaza aprofundou as contradições americanas, minando qualquer autoridade moral para defender direitos humanos ou promover a paz.
O possível retorno de Donald Trump tende a acelerar esse declínio. Sua retórica isolacionista e unilateral ameaça alianças estratégicas e enfraquece a cooperação multilateral, aprofundando a fragmentação global.
Além destes desafios, os Estados Unidos enfrentam uma série de crises internas que aceleram esse declínio de sua influência global. A polarização política e a fragmentação da sociedade norte-americana, intensificada pelas disputas entre democratas e republicanos, tem impossibilitado ao país oferecer uma liderança coesa, com um extremismo político crescente. A deterioração institucional tem corroído a imagem do país como modelo de estabilidade e democracia. Ademais, problemas sistêmicos como a desigualdade social, a crise de opioides e o declínio educacional também evidenciam dificuldades internas significativas.
É fundamental revitalizar a globalização como um meio de assegurar a paz e a prosperidade globais. Diferente do protecionismo e isolacionismo crescentes, uma globalização inclusiva e equilibrada pode unir nações em torno de objetivos comuns, como o desenvolvimento sustentável, a redução da pobreza e a estabilidade global. Novos atores, como a China, e coalizões emergentes, como os BRICSPlus, oferecem propostas alternativas mais alinhadas a um futuro compartilhado.
O declínio norte-americano não precisa ser uma ameaça ao mundo. Pode, ao contrário, servir como um catalisador para uma nova ordem global mais justa, equilibrada e cooperativa. O fortalecimento do multilateralismo e a renovação da globalização são os únicos caminhos viáveis para enfrentar os desafios globais com responsabilidade, diálogo e união.

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