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O Custo Trump de America Only

O Custo Trump de America Only - Imagem: Reprodução / Instagram / @realdonaldtrump
O Custo Trump de America Only - Imagem: Reprodução / Instagram / @realdonaldtrump
Marcus Vinícius De Freitas

por Marcus Vinícius De Freitas

Publicado em 07/08/2025, às 09h01


A história demonstra, com obstinada regularidade, que impérios não se desfazem apenas sob o peso de seus inimigos, mas também pela miopia estratégica de suas lideranças. Donald Trump, ao reassumir o protagonismo político nos Estados Unidos, parece determinado a oferecer um novo exemplo clássico desse declínio. Sob o rótulo de America First — agora perigosamente transformado em America Only — o presidente norte-americano engendra uma lógica de soma zero, cujas consequências se estendem muito além das fronteiras de seu país. Enganam-se os que imaginam que essa postura resultará em prosperidade ou estabilidade. Ao contrário: o custo Trump será elevado, prolongado e corrosivo para o comércio global, a arquitetura política internacional e a própria hegemonia dos Estados Unidos.

A base da política trumpista é a crença de que o mundo deve mais aos Estados Unidos do que estes devem ao mundo. Assim, em vez de fomentar interdependência estratégica, o ex-presidente opta por um protecionismo agressivo, anacrônico e, por fim, autodestrutivo. Ao impor tarifas punitivas sobre produtos de países aliados — como os 50% recentemente aplicados a algus produtos brasileiros — Trump transforma o comércio internacional em uma arena de coerção. Sob o pretexto de proteger a indústria americana, promove-se, na verdade, uma transferência injusta de renda de países em desenvolvimento para a maior potência econômica do planeta. O imposto disfarçado de patriotismo afeta diretamente consumidores norte-americanos, mas atinge com força desigual parceiros menores, que pouco podem fazer além de se afastar gradativamente do sistema.

Essa postura contribui para a erosão de décadas de construção multilateral. Instituições como a OMC são minadas em sua credibilidade. A confiança entre países — elemento invisível, mas essencial à fluidez das trocas internacionais — é substituída pela lógica da chantagem. O resultado é uma fragmentação do comércio global, com impactos particularmente graves para países que, como o Brasil, dependem de estabilidade normativa e previsibilidade jurídica para articular suas cadeias de valor.

A Europa, por sua vez, tem revelado uma lamentável disposição em aceitar esse novo código de conduta sem resistência. Substituindo sua outrora altiva ambição de autonomia estratégica por uma obediência servil aos ditames de Washington, os europeus se mostram cada vez mais dispostos a pagar preços elevados — literalmente — por decisões que não tomam. Ao se submeterem à agenda energética imposta pelos EUA e se prepararem para um confronto indireto com a Rússia que lhes seria devastador, os países europeus parecem ter abdicado de sua soberania geopolítica em troca de uma vaga promessa de proteção. A dependência dos EUA se torna mais onerosa do que vantajosa.

No Oriente Médio, a aliança entre Trump e Netanyahu promoveu uma reconfiguração da região baseada na desconsideração sistemática do direito internacional e na marginalização do elemento palestino. Em nome da segurança de Israel, sem considerar os efeitos colaterais regionais, plantou-se a semente de uma instabilidade duradoura. Ao abandonar a diplomacia como ferramenta legítima, Trump substituiu pontes por muros — simbólicos e concretos.

O custo Trump é, portanto, múltiplo: comercial, institucional, geopolítico e moral. Comercial, porque destrói cadeias de valor e compromete o livre fluxo de bens e investimentos. Institucional, porque mina as bases do multilateralismo. Geopolítico, porque empurra aliados para posturas defensivas, reduzindo sua margem de autonomia. E moral, porque ao institucionalizar o egoísmo estratégico, torna-se mais difícil sustentar valores universais como cooperação, solidariedade e justiça internacional.

Mas talvez o custo mais alto seja o que Trump impõe à própria liderança americana. Ao abandonar o papel de fiador da ordem liberal internacional, os Estados Unidos renunciam ao seu soft power e trocam o respeito pela intimidação. A hegemonia americana, que por décadas combinou poder com legitimidade, começa a degenerar em mera superioridade bruta, cada vez menos eficaz em um mundo multipolar e cada vez mais desconfiado.

America Only não é uma doutrina de força — é um sintoma de insegurança. É o reflexo de um império que teme a própria decadência e, por isso, agride antes de dialogar. No curto prazo, Trump pode colher aplausos de plateias internas ressentidas. No longo prazo, porém, o que colherá será isolamento, resistência e irrelevância crescente. O mundo não será melhor. Nem os Estados Unidos.


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