
por Marcus Vinícius De Freitas
Publicado em 22/02/2023, às 08h13
Embora se tente demonstrar que o mundo apoia a Ucrâniaem seu combate com a Rússia, a realidade é bem distinta daquilo que se apregoa no chamado “Ocidente” – Estados Unidos, União Europeia e a OTAN, como organização. Pesquisas recentes evidenciam que 1/3 da população mundial é indiferente à guerra e 1/3 apoia a Rússia, por entender que a guerra ocorre dentro do contexto europeu e se pretende globalizar um problema que afeta um número limitado de países. É por essa razão que o Sul Global tem sido tão avesso a apoiar o “Ocidente” nesta guerra.
Uma das razões, sem dúvida, é que se notou que a guerra, em princípio restrita à Rússia e Ucrânia, se transformou muito mais numa guerra por procuração. Este tipo de conflito armado se utiliza de terceiros como intermediários para as superpotências – no caso, Rússia e Estados Unidos – não lutarem diretamente entre si. Ao assim fazer, também se espera que não haja uma súbita escalada no conflito que possa levar a um cenário irreversível de guerra. Mas o fato é que o conflito continua e, considerando as últimas movimentações e provocações de lado a lado, tenderá a radicalizar-se antes de se chegar a um algum tipo de armistício.
Será necessário desenvolver uma narrativa em que ambos os lados possam alegar que venceram o conflito. A partilha do território, no entanto, constituirá o fator determinante para se afirmar a derrota ou vitória de um lado ou do outro. O “Ocidente” precisa que a Ucrâniavença a guerra para enfatizar a importância do seu papel e a manutenção da sua posição de relevância global. Afinal, uma derrota da Ucrânia com todo o apoio em armamentos bélicos recebidos das principais potências do “Ocidente” criaria um resultado vexatório e difícil de transformar numa narrativa positiva.
A Rússia, por outro lado, também necessita uma narrativa positiva sobre a guerra. Putin utilizou – e abusou – do discurso de restauração do império russo para garantir o apoio doméstico e isto, com certeza, terá impacto no questionamento sobre a sua capacidade para seguir à frente da liderança do país, em que pese o saldo positivo acumulado por Putin após o período desastroso de Boris Yeltsin no passado, mas que as atuais gerações já têm esquecido e relevado.
Construir uma narrativa positiva para ambos os lados e, ao mesmo tempo, assegurar que concessões sejam alcançadas é uma tarefa hercúlea para uma comunidade internacional cada vez mais dividida. A Ucrânia busca um cessar-fogo em que os russos abandonem os territórios ocupados, com a restauração da integridade territorial, fazendo o Kremlin pagar pelos crimes de guerra e a destruição do país. Já os termos da Rússia permanecem difíceis de identificar. Putin, em sua estratégia de ocupação do território, não tem deixado claro qual é o seu objetivo final: a princípio, seria a anexação territorial ou a instalação de um governo títere, com uma Ucrânia que jamais faça parte da OTAN ou da União Europeia. A Rússia pretende, no entanto, sair do conflito reconhecida como uma potência ainda relevante e essencial na ordem internacional. Trata-se de interesses diametralmente opostos, difíceis de alcançar, particularmente considerando a interferência de terceiros.
Para o “Ocidente”, o ideal seria a desintegração da Federação Russa em muitos novos estados. Com isto, dividida internamente, a Rússia perderia muito do seu protagonismo local e global. Trata-se de uma perspectiva ousada porque, ao final, arsenais nucleares estão em jogo e nada garante que os novos detentores do poder obedeçam às regras de convivência internacional.
Não será, por certo, nenhum país do “Ocidente” que terá a capacidade de promover as negociações para buscar o fim das hostilidades. Neste sentido, a impressão é que, apesar de não ter sido contrária à ação da Rússia, a China poderia assumir um importante papel de fiel da balança nas negociações. Resta a Beijing verificar se lhe interessa este papel de mediador de um conflito, com todo o peso de um “Ocidente” que não gostaria de ver uma potência em ascensão como a Chinaassumindo o protagonismo da situação. O Brasil até poderia querer assumir um papel mais relevante, mas isto requereria um tipo diferente de diplomacia e de governo. Afinal, como é possível a um governo que não logra conciliar a sua população local, polarizada e uma grande parte insatisfeita com os resultados eleitorais, conseguiria atuar internacionalmente, num conflito desta magnitude?
O caminho da paz passa por um cessar fogo temporário entre as partes e uma baixa na temperatura retórica dos dois lados. Para tanto, é preciso que os Estados Unidos também compreendam de que o slogan “my way or the highway” (“meu caminho ou a estrada”) não funciona mais. O mundo mudou muito nas últimas décadas e o poder de dissuasão norte-americano também tem diminuído.
A Europa, combalida por uma crise energética jamais vista em décadas, perde a cada dia competitividade que tem. A indústria italiana, por exemplo, tem visto sua participação global reduzida diante do encarecimento do custo de energia. Aliás, já se começa a notar, em vários mercados, um declínio – mesmo no continente europeu – do apoio à Ucrânia diante do custo da guerra e da assimetria das sanções impostas, que vêm afetando, profundamente, a determinados setores.
O caminho da paz é longo. Não será a aposta de levar à Rússia à bancarrota econômica que alterará os rumos da guerra. Tratar Moscou como pária internacional tem-se revelado como a pior das opções. Se esse tipo de tratamento desse certo, Coreia do Nortee Irã seriam membros exemplares da comunidade internacional. Não é o caso. O caminho da paz reside na comunicação contínua entre as partes, administração das diferenças e buscar eliminar aquilo que aprofunda a crise. Países terceiros devem ser afastados da equação porque, ao final, sua preocupação tende a ser menos com o conflito e mais com o poder. E o mundo precisa de paz, não de xerifes.

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