
por Marcus Vinícius De Freitas
Publicado em 31/07/2024, às 06h00
O mundo parece anestesiado com algumas perspectivas equivocadas. Em que momento – ou universo – poderia acreditar-se que Nicolás Maduro perderia as eleições na Venezuela? O cenário político venezuelano, há anos dominado pelo Chavismo e Madurismo, precisa de um processo longo de desintoxicação bolivariana. E para que isso aconteça, não será a população com seu voto que logrará os resultados. É necessário que a classe dominante venezuelana embarque na ideia de mudança. Agora, fazer isso é praticamente impossível, diante dos interesses que Chavez e Maduro lograram contemplar ao longo das décadas que se encontram no poder. Mudar este cenário, sem anistia garantida ou a promessa de manutenção dos privilégios é, praticamente, impossível. A outra opção seria o banho de sangue.
A conjuntura venezuelana é complicada porque já, há muito tempo, que o escalão superior daquele Estado transformou o país num estado mafioso, com corrupção rampante e uma associação daninha com o narcotráfico, crime organizado, contrabando de armas e inúmeras outras atividades ilícitas, destruindo todas as instituições democráticas existentes antes do período Chavez. Infelizmente, quando o Brasil poderia ter tido algum papel de maior relevância, o País era administrado por simpatizantes daquele tipo de liderança política, sua metodologia de permanência no poder e até mesmo seu modus operandi. Este mesmo grupo se encontra na liderança do Brasil atualmente. O regime Maduro não se comporta nem opera de acordo com princípios democráticos ou de valores morais, uma vez que o Estado venezuelano encontra-se internamente esfacelado.
Os Estados Unidos, apesar do enorme interesse econômico ainda existente na Venezuela em razão de suas reservas petrolíferas, não têm interesse numa intervenção, particularmente considerando o histórico negativo do envolvimento norte-americano no Iraque e no Afeganistão. Os Estados Unidos – uma potência mundial em declínio – aprenderam a lição de que a intervenção, por menor que seja, gera a obrigação de assumir, por tempo indeterminado, o controle e a manutenção do local da intervenção, além do seu direcionamento governamental. A quebra do “status quo” implica a obrigação do gerenciamento a posteriori.
Quando, por outro lado, essa assunção de responsabilidades não ocorre e se deixa o país à própria sorte, temos resultados como a calamitosa situação da Líbia, que serve como lição fundamental de erro da ação equivocada e da inação, uma vez que os países interventores simplesmente abandonaram a Líbia à própria sorte.
O cenário da Venezuela deixou há algum tempo de ser uma questão meramente política - como apregoam alguns - mas sim uma questão ética, que é fundamental para o futuro da própria América Latina. O Brasil tem persistentemente errado nas estratégias aplicadas até agora: apoiou Chavez, como fizeram FHC e Lula, ou ainda Maduro, como fez Dilma. O Governo Temer pretendeu endurecer, ainda que de maneira capenga, o posicionamento do Brasil, porém sem exercer efetiva liderança para alterar o rumo da situação. O governo Bolsonaro, ao aliar-se, automaticamente, aos Estados Unidos, perdeu uma possível isenção que lhe permitisse agir como mediador na crise e conseguiu o pior dos dois mundos: desqualificou-se como interlocutor e como possível efetivo agente de mudança, permanecendo no discurso e na bravata, e não em ações efetivas. E o governo atual passa pano para a tragédia venezuelana, o que deteriora o posicionamento do Brasil como liderança regional e global.
O contexto calamitoso na Venezuela – uma das maiores tragédias humanitárias da história da América Latina – oferecia ao Brasil a oportunidade do reconhecimento internacional por sua atuação inteligente e eficaz. O equivocado posicionamento brasileiro adotado desde 1999, quando Hugo Chávez assumiu a presidência da Venezuela, tem enfraquecido, paulatinamente, qualquer possibilidade de reconhecimento da liderança brasileira. Por equívoco ideológico dos dois lados do espectro político brasileiro, tem-se a impressão de que o País pretende projetar internacionalmente a disfuncionalidade da sua política doméstica. Isto retirou do Brasil qualquer autoridade que, como parceiro regional, seria um intermediário natural no processo. Enquanto isso, milhares de pessoas estão passando fome, morrendo e sem perspectiva de futuro na Venezuela.
Os Maduristas-Chavistas, encastelados em toda a Administração do Estado Venezuelano, precisam ter a certeza de que serão anistiados num eventual processo de transição. O revisionismo da Argentina e das Comissões de Verdade em outras situações geram enorme desconfiança por parte daqueles que, atualmente, desfrutam das benesses do poder.
Além disso, restaria saber o que fazer com Nicolás Maduro, afinal ditadores, no mundo moderno, em geral acabam assassinados ou presos, por mais que consigam esconder-se em alguma jurisdição que lhes abrigue. Fala-se de Cuba, como possível local de asilo, mas se Maduro for racional, com certeza compreenderá que até mesmo o atual regime cubano está com os dias contados e que uma nova administração seria totalmente a favor de um fortalecimento nos laços bilaterais com os Estados Unidos.
Tampouco existem muitas garantias de que a situação pós-Maduro irá, de fato, melhorar a Venezuela. Afinal, o exemplo negativo da Primavera Árabe, como no caso do Egito, em que se elegeu um radical, o que ensejou posteriormente um golpe de estado com o retorno dos militares ao governo, sem expectativas de alternância no poder, ressoa como uma possibilidade que não pode ser afastada.
Por fim, o dia seguinte da Venezuela é muito complicado. Maduro previu um banho de sangue. Não estava de todo errado. O establishment político só renunciará ao poder por meio de negociação – uma anistia ampla, geral e irrestrita – ou terá de ser extirpada radicalmente. A situação é muito séria.

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