
por Marcus Vinícius De Freitas
Publicado em 22/05/2024, às 07h40
Não há dúvida de que, ao final da década de 1990, quando a Internet começava a ganhar corpo globalmente, as perspectivas quanto ao futuro daquela impressionante tecnologia eram espetaculares. Finalmente, a humanidade teria acesso a todo o conhecimento produzido. As comunicações ficariam mais rápidas. O comércio aumentaria substancialmente. O estilo de vida seria alterado profundamente. O mundo ficaria menor e mais próximo. A revolução da informação aproximaria pessoas de todas as partes do mundo numa superestrada global da informação.
Para quem viveu naquela época, esta plataforma global, conectando milhares de redes em todo o mundo e os usuários, ampliaria o conhecimento humano de uma forma jamais vista. A Internet se transformaria numa biblioteca de informação global, com a possibilidade de ampla discussão com indivíduos em todos os cantos do planeta. A interação online proporcionaria um salto insuperável na qualidade de vida da humanidade.
A Internet abriu novas perspectivas transformando-se na grande mola propulsora do desenvolvimento econômico, da globalização, do aumento do comércio internacional e da própria democracia. O mundo, rapidamente, aproximou-se como nunca. E tudo parecia ir muito bem.
Mas, como todas as coisas podem ser deterioradas, as mídias sociais vieram para deturpar, infelizmente, aquele amplo espectro que era aberto pela nova tecnologia. A mídia social, ao mesmo tempo que nos tornou mais próximos, criou um mundo fantasioso em que pessoas vivem maravilhosamente bem, corpos são esculturalmente construídos e a riqueza pode ser alcançada facilmente. Surgiram os famosos “influencers”,“coaches”, vendedores de cursos e “especialistas” em todos os assuntos, sempre com uma preocupação maior com a forma e jamais com a qualidade do conteúdo.
As mídias sociais deram palco a quem, de outra maneira, jamais o teria. Passamos a viver uma busca insana por likes, na tentativa de buscar algum tipo de validação social. Quanto mais seguidores você tiver, mais relevante você deve ser. Com isso, a Internet que era para ser o palco de grandes avanços culturais, intelectuais e do conhecimento, de repente, viu-se transformada numa feira em que muito do que prevalece como conteúdo é de péssima qualidade. Nunca se ouviram tantas teorias conspiratórias, histórias estapafúrdias ou houve tanta manipulação como nos últimos tempos. Até supostos filósofos se transformaram em propagadores de autoajuda, políticos e juízes viraram lacradores e, por alguns minutos de fama, as pessoas estão dispostas a fazer as coisas mais estapafúrdias possíveis.
Durante o período da pandemia da Covid-19, a desinformação chegou a um clímax, adoecendo uma sociedade já depauperada por péssimos governos e falta de perspectivas quanto ao futuro. Além disso, a questão do politicamente correto assumiu um papel desproporcional: a mesma Internet que leva um indivíduo a um sucesso de 5 minutos extirpa a reputação por uma eternidade.
O impacto das mídias sociais tem levado a um engajamento superficial, difusão de desinformação, superficialidade de relacionamentos num universo que poderia contar com melhor conectividade, abundância de informação de qualidade e maior profundidade nos relacionamentos humanos.
Através das plataformas, falsas informações se tornaram uma realidade, baseando-se, principalmente, num processo de preguiça intelectual dos indivíduos que parecem ter diluído o pensamento crítico. Isto tudo se deve ao fato de que a capacidade de atenção das pessoas diluiu substancialmente. Acostumados a informações alimentadas por algoritmos, os espectros de atenção são menores: a preferência é por informação rápida, sem um pensamento aprofundado, analítico e crítico. Pessoas elegem romances e parceiros sexuais baseados em traços somente físicos, com os relacionamentos se tornando cada vez mais rasos. A capacidade de leitura, abstração de pensamento e o raciocínio crítico também vêm diminuindo substancialmente, com uma redução significativa na capacidade de leitura.
Embora fatores positivos existam, como o maior acesso à informação como nunca na história da humanidade, aumento na conexão entre os indivíduos, e a disponibilização de conteúdo educacional em grande quantidade, o impacto das mídias sociais parece ser muito mais negativo que positivo, gerando profundas preocupações quanto às futuras gerações. Os maiores desafios das redes sociais parecem ser a eliminação gradual da capacidade de pensamento crítico e o aumento irreversível da superficialidade dos relacionamentos humanos.
O fato é que, apesar dos aspectos positivos, a mídia social estupidificou as pessoas e as dividiu em tribos. No entanto, a pior contribuição das mídias sociais foi na polarização política. Grupos políticos se transformaram em equipes de futebol, quase com uma devoção religiosa. Igualmente à religião, os indivíduos se tornaram massa de manobra dos iluminados, em que o debate político divide famílias, amigos e sociedade. Este tipo de devoção está sempre fadado a grandes decepções porque nenhum dos lados jamais corresponderá às expectativas. Tal como as religiões.
A Internet era para ser uma superestrada global da informação. Infelizmente, tem-se transformado numa lagoa pútrida dos piores sentimentos humanos. É hora de mudar para retomar a esperança e as grandes promessas que a Internet representava. E ainda representa.

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