
por Marcus Vinícius De Freitas
Publicado em 29/10/2025, às 09h19
O encontro entre Luiz Inácio Lula da Silva e Donald Trump, realizado na Malásia, representa mais do que um simples gesto de cortesia política. Trata-se de um episódio que reflete o novo realinhamento do sistema internacional — e, sobretudo, o amadurecimento da política externa brasileira ao reconhecer a centralidade da Ásia e da ASEAN (Associação de Nações do Sudeste Asiático) na arquitetura econômica e geopolítica do século XXI.
Durante muito tempo, o Brasil manteve um olhar excessivamente voltado para o Atlântico. Hoje, porém, começa a perceber que o eixo dinâmico da economia mundial se deslocou para o Indo-Pacífico. Enxergar a ASEAN como parceira estratégica é compreender que a prosperidade do futuro passará inevitavelmente por essas rotas asiáticas. O diálogo com Trump, durante a Cúpula da ASEAN, que culminou na entrada de Timor-Leste, ocorreu num momento importante para o Brasil reposicionar-se no tabuleiro global — não como coadjuvante, mas como interlocutor relevante.
Infelizmente, a polarização política interna ainda impede o País de reconhecer-se com a devida maturidade. A esquerda e a direita brasileiras, em vez de projetarem o Brasil como uma nação de continuidade institucional, preferem deslegitimar o que vem do outro campo. Essa disputa míope transforma os governos em entidades absolutas e o Estado em refém das paixões partidárias. O resultado é a corrosão da autoestima nacional — um fenômeno semelhante ao observado nos Estados Unidos, onde Donald Trump se apresenta como o “Redentor” de uma nação supostamente arruinada por Joe Biden. Essa postura mina a própria noção de interesse nacional e enfraquece a política como instrumento de construção coletiva.
O encontro entre Lula e Trump deve ser visto, portanto, como uma reunião institucional, não pessoal. Ambos são, afinal, ocupantes temporários da chefia do Executivo. As relações entre o Brasil e os Estados Unidos transcendem governos: somam mais de dois séculos de amizade, cooperação e interdependência econômica. Há capital brasileiro em solo americano e capital americano amplamente investida no Brasil — um tecido de interesses cruzados que não pode ser reduzido a disputas ideológicas nem a vaidades pessoais.
Além disso, convém lembrar que os Estados Unidos têm superávit no comércio com o Brasil. A tarifa de 50% imposta por Trump serve, uma vez mais, como um alerta implacável para o Brasil diversificar os mercados e reduzir as dependências. Trump deixou clara uma questão fundamental: a aproximação com a China é um mal a ser evitado. No discurso, a crítica truculenta a Beijing é uma realidade. Nesse contexto, o Brasil lida com pressões econômicas significativas, em meio a negociações complexas e assimétricas.
Trump, ao tentar conter a aproximação com Pequim, pratica a sedução à base do susto e da pressão. Demoniza a China no discurso, mas oferece ao Brasil o amargo da coerção comercial. Ainda assim, a realidade é implacável: a fábrica do mundo já não é Washington, mas Pequim, que responderá por 45% da produção global até 2030, contra 11% dos EUA.
Trump esperar que o Brasil amplie a compra de produtos manufaturados norte-americanos é ignorar a realidade. A economia dos EUA tornou-se essencialmente tecnológica, ancorada na inteligência artificial e nos serviços digitais — um setor em rápida expansão, mas também sujeito às volatilidades típicas de bolhas especulativas, o que provavelmente ocorrerá num futuro próximo.
Há quem leia o gesto de Trump como um abandono de Bolsonaro e uma adesão a Lula. Trata-se de equívoco. Trump busca resultados, não ideologias. Para ele, o Brasil é útil enquanto reconhece a hegemonia americana na região. A narrativa da “perseguição política” — que ele próprio encarna — aplica-se tanto a Lula quanto a Bolsonaro, figuras polarizadoras que, cada qual a seu modo, afirmam ter sido vítimas do sistema.
O Brasil deve agir com prudência. Somos, em muitos aspectos, concorrentes dos Estados Unidos, sobretudo no mercado chinês. Por isso, é fundamental não cair no “canto da sereia” de uma suposta reaproximação ou de um alinhamento automático com Washington. A prioridade brasileira deve ser clara: expandir mercados, consolidar o BRICS+, aprofundar os laços com a ASEAN, fortalecer o relacionamento com a China, fazer parte da Nova Rota da Seda e, por fim, redefinir o papel do Mercosul – se ainda deve continuar a existir como mercado comum – à luz da nova geografia econômica global.
À medida que o sistema internacional se reconfigura, a vocação do Brasil é a de arquiteto do equilíbrio: construir pontes onde outros erguem muros. A reunião de Kuala Lumpur não é apenas uma fotografia — é um presságio de que, no século XXI, o poder não pertence a quem impõe, mas a quem compreende que harmonia e influência são inseparáveis.

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