
por Marcus Vinícius De Freitas
Publicado em 10/07/2025, às 08h23
O mundo atravessa uma inflexão histórica: o unipolarismo cede lugar a uma ordem multipolar em gestação, ainda fluida, mas cada vez mais estruturada por iniciativas concretas do Sul Global. Nesse contexto, a XVII Cúpula do BRICS, realizada no Rio de Janeiro em julho de 2025, representa um marco simbólico e substantivo na afirmação de um novo paradigma de cooperação internacional. Longe de ser uma reunião esvaziada, como tentaram sugerir alguns analistas de viés eurocêntrico e norte-americano, a Cúpula demonstrou vigor político, profundidade conceitual e uma agenda clara de articulação institucional.
Analistas ocidentais frequentemente ridicularizam o BRICS+, considerando-o um agrupamento diplomático de pouca força real, limitado a trocas burocráticas e sem coesão concreta. Ignoram que o Sudeste Asiático, a África Subsaariana e a América Latina veem no BRICS+ uma possibilidade de representação real. A capacidade de criar estruturas alternativas, mesmo que modestas no início, em Inteligência Artificial, finanças e conectividade, já está em movimento — e só se valida se ganharem continuidade. Também ignoram o capenga e dividido G7, incapaz de produzir até mesmo um Comunicado Oficial ao final da sua Cúpula.
A Declaração do Rio de Janeiro é clara em seu propósito: consolidar o BRICS+ como alicerce de uma governança global mais inclusiva, plural e justa. A adesão da Indonésia como membro pleno e de parceiros - a República da Belarus, o Estado Plurinacional da Bolívia, a República do Cazaquistão, a República de Cuba, a República Federal da Nigéria, a Malásia, o Reino da Tailândia, a República Socialista do Vietnã, a República do Uganda e a República do Uzbequistão – amplia a densidade geopolítica do grupo, conferindo-lhe maior representatividade. Em contraste com os mecanismos excludentes do G7 e da OTAN, o BRICS+ propõe uma arquitetura aberta, diversa, cooperativa e guiada pelo princípio da multipolaridade construtiva.
Três eixos emergem com destaque do comunicado oficial: (1) a reforma das instituições de governança global, incluindo o Conselho de Segurança da ONU – na minha opinião crítica, uma perda de tempo e esforço por insistência do Brasil – e as Instituições de Bretton Woods; (2) a promoção de uma agenda climática justa, com foco no financiamento de transições energéticas e na credibilidade das promessas feitas pelos países desenvolvidos; e (3) a consolidação de estruturas autônomas em setores estratégicos, como a Governança da Inteligência Artificial, a criação da Bolsa de Grãos dos BRICS e os avanços nos sistemas de pagamentos transfronteiriços.
Essas iniciativas demonstram que o BRICS+ não é apenas um espaço de retórica diplomática, mas sim um campo de engenharia institucional concreta. Como defendi em várias ocasiões, é urgente a criação de uma Secretaria Permanente dos BRICS+, bem como de um mecanismo de intercâmbio educacional que promova o autoconhecimento entre os povos do Sul Global. Um "Programa Gandhi-Yatsen de Intercâmbio", por exemplo, inspirado na experiência do Erasmus europeu, permitiria às novas gerações formar vínculos e compreender as similitudes civilizacionais que compartilham.
O comunicado também denuncia os limites do sistema atual: condena sanções unilaterais, manifesta preocupação com o protecionismo verde europeu e alerta para os riscos de uma agenda ambiental usada como subterfúgio para manter desigualdades comerciais. É uma postura que se alinha com a visão de uma modernidade compartilhada, em que o progresso tecnológico e o crescimento econômico sejam compatíveis com a inclusão social e a preservação ambiental.
Outro ponto central é o fortalecimento do Novo Banco de Desenvolvimento (NDB), que busca – e deve –consolidar-se como alternativa às instituições financeiras tradicionais. Ao estimular financiamentos em moeda local e fomentar projetos de infraestrutura, o NDB afirma-se como instrumento vital de soberania econômica e resiliência financeira.
Mais que uma cúpula, o encontro do Rio de Janeiro foi um chamado para que os países emergentes assumam o protagonismo que lhes cabe no século XXI. O BRICS+ é, hoje, a principal plataforma de articulação do Sul Global. Cabe aos seus membros transformar discurso em estrutura, aspiração em arquitetura, desejo em instituição. A multipolaridade não é apenas inevitável; é necessária. E o BRICS+, com todos os seus desafios e complexidades, segue como o caminho mais promissor para alcançá-la com dignidade, equidade e visão estratégica.
A recente declaração do presidente norte-americano, Donald Trump, propondo uma tarifa de 10% sobre produtos oriundos dos países do BRICS+, não é apenas uma medida protecionista isolada, mas reflexo de uma estratégia que reconhece, ainda que de forma distorcida, a incapacidade do G7 de seduzir os emergentes pelas vias da cooperação. Em vez de oferecer possibilidades, busca impor o temor e a vassalagem. Tal postura apenas reforça a urgência de os países do BRICS+ aprofundarem seus laços, estruturarem alternativas e demonstrarem que o Sul Global não é mais campo passivo da história, mas agente ativo de sua própria redenção.

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