
por Marcelo Emerson
Publicado em 09/02/2023, às 11h26
Na coluna da semana passada relatei uma situaçãoem que a simples declaração de fé feita por mim numa conversa em rede social acabou gerando certo constrangimento no meu interlocutor. O fato é bastante prosaico, mas reflete uma questão mais profunda: a associação da fé religiosa com certas posições políticas.
Quero retomar o tema neste texto, já que a coluna anterior gerou reação em alguns leitores que me enviaram mensagens aprofundando o debate.
Ao contrário do que muitos pensam, a discussão sobre a relação política vs. Religião não é nova. Um dos maiores pensadores da Igreja, Agostinho de Hipona (Santo Agostinho, para os católicos) propôs no séc. IV a ideia das duas cidades. Testemunhando a decadência do Império Romano, o teólogo ressaltou a independência do cristianismo em relação ao poder temporal de Roma.
Para ele, a assembleia dos verdadeiros crentes, que amam a Deus sobre todas as coisas, estava preservada da derrocada dos romanos, pois estes representavam os pagãos e hipócritas que não têm fé no Deus verdadeiro.
Séculos depois, em 1523, Martinho Lutero adotou o conceito das duas cidades no tratado “DA Autoridade Secular”, na qual dividiu a humanidade em reino de Deus e reino do mundo. O primeiro seria constituído de “todos os que, como verdadeiramente crentes, estão em Cristo e sob Cristo”. O reino do mundo seria formado por “todos os não-cristãos”.
Lutero argumentava que os verdadeiros cristãos não deveriam, em qualquer hipótese, utilizar a violência para atingir finalidades mundanas. Para o teólogo alemão, os cristãosdeveriam agir pacificamente em busca de justiça, de modo que ficasse preservado o reino espiritual, sem as corrupções próprias das tentativas de realizar o reino de Deus na Terra por meio da força.
Tomando por base o pensamento de Agostinho de Hipona e Martinho Lutero, torna-se extremamente difícil aceitar a instrumentalização da religião cristã para fins de política partidária miúda, como temos testemunhado em recentes campanhas eleitorais e nas rotinasdaqueles que ocupam cargos públicos.
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