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Dezembro tem duas cores. Mas o desafio da saúde no Brasil não é cromático — é estrutural

Médico segura laço vermelho em campanha de conscientização sobre HIV/Aids - Imagem: Reprodução / Freepik
Médico segura laço vermelho em campanha de conscientização sobre HIV/Aids - Imagem: Reprodução / Freepik
Mara Machado

por Mara Machado

Publicado em 12/12/2025, às 09h37


Todos os anos, dezembro chega pintado de boas intenções. O vermelho mobiliza a prevenção ao HIV/Aids. O laranja alerta para o câncer de pele. Duas campanhas importantes, dois temas graves, milhões de pessoas alcançadas por mensagens necessárias.

Mas a pergunta que dezembro nos obriga a fazer é mais profunda: o Brasil está construindo um sistema de saúde capaz de sustentar esses cuidados ao longo do tempo — ou apenas operando por ondas de mobilização emocional?

No caso do HIV, os números da PrEP costumam ser apresentados como vitória. De fato, a expansão é significativa, com mais de 140 mil pessoas em uso ativo e crescimento acelerado nos últimos anos. Mas a mesma estatística revela a fragilidade do modelo: 34% dos usuários interrompem o tratamento em menos de 12 meses. Não se trata de falha individual. Trata-se da ausência de um sistema capaz de cuidar continuamente.

Prevenção não se sustenta com campanha. Sustenta-se com atenção primária forte, prontuário interoperável, acompanhamento longitudinal, vínculo profissional-paciente, estabilidade de financiamento e governança clínica. Sem isso, o acesso cresce — mas o cuidado se dissolve.

O câncer de pele segue lógica semelhante. O discurso repete o mantra do protetor solar, enquanto silencia sobre:

  • jornadas de trabalho sob sol,
  • ausência de políticas ocupacionais de fotoproteção,
  • desigualdade no acesso ao diagnóstico,
  • filas para dermatologia,
  • e cobertura irregular de rastreamento.

Mais uma vez, transfere-se a responsabilidade ao indivíduo enquanto o sistema permanece estruturalmente frágil.

Esse é o grande equívoco que dezembro escancara todos os anos: tratar saúde como comportamento isolado, e não como arquitetura institucional. O Brasil é extraordinário em campanhas. Mas campanhas não substituem:

  • engenharia sanitária,
  • vigilância estruturada,
  • capacidade instalada,
  • metrologia,
  • cadeia de suprimentos estável,
  • governança clínica e assistencial.

Falar em saúde sustentável não é falar apenas de prevenção individual. É falar de:

  • continuidade do cuidado,
  • redução de desperdícios sistêmicos,
  • uso racional de recursos,
  • proteção da força de trabalho da saúde,
  • infraestrutura segura,
  • e coordenação real entre políticas públicas.

Caso contrário, seguiremos presos a um paradoxo perverso: celebramos números de acesso enquanto normalizamos a incapacidade de sustentar o cuidado.

Dezembro é simbólico, sim. Mas não pode continuar sendo apenas um ritual de comunicação. Saúde não se mantém por campanhas — sustenta-se por sistemas.

E enquanto insistirmos em cores, sem enfrentar as bases da governança, da infraestrutura e do modelo de gestão, o futuro continuará sendo construído sobre uma fundação instável.

No fim, saúde verdadeiramente sustentável não é a que aparece no calendário. É a que permanece quando o calendário vira.


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