
por Mara Machado
Publicado em 20/05/2025, às 12h06
Em 20 de maio, relembramos a descoberta do vírus HIV. Quatro décadas depois, o que deveria ser uma vitória da ciência e das políticas públicas ainda carrega os ecos do atraso, da negligência e do preconceito. O enfrentamento do HIV expôs o pior e o melhor da saúde coletiva: o peso do estigma que silencia, e o poder da ciência quando há vontade política. No entanto, não aprendemos o suficiente. As mudanças climáticas já são a próxima pandemia silenciosa, e estamos repetindo os mesmos erros — com os mesmos grupos de sempre pagando a conta.
O HIV foi ignorado em seu início, quando mais precisava de atenção, e só entrou na agenda quando atravessou fronteiras geográficas e sociais. A emergência climática segue roteiro semelhante. Não é por falta de dados ou projeções: a ciência já demonstrou como as mudanças no clima influenciam surtos de arboviroses, infecções respiratórias, crises hídricas e insegurança alimentar. A diferença é que, agora, não teremos o luxo de esperar 40 anos para reagir. A crise climática é cumulativa, intersetorial e estrutural.
O que separou o HIV da tragédia absoluta foi a ciência, mas, sobretudo, o SUS. Com políticas públicas firmes, o Brasil garantiu acesso universal a tratamento antirretroviral, implementou estratégias de prevenção e formou profissionais capazes de acolher, sem moralismo, quem mais precisava. A crise climática, por sua vez, está sendo tratada com a mesma lentidão institucional e tecnocracia indiferente que, nos anos 1980, ceifou vidas por omissão. É preciso parar de tratar o clima como uma abstração ambiental e começar a entendê-lo como um determinante brutal da saúde coletiva.
A formação dos profissionais de saúde permanece presa ao século passado. Continuamos formando médicos, enfermeiros e gestores sem lhes dar as ferramentas mínimas para compreender contextos como saúde planetária, vigilância ambiental, comunicação de risco, desigualdades climáticas. É ingênuo — ou irresponsável — esperar respostas eficazes a novos problemas com currículos e estruturas do passado. A omissão na formação é uma forma de violência institucional.
A atenção primária, frequentemente subfinanciada e desvalorizada, é quem receberá o impacto direto das mudanças climáticas. São os agentes comunitários que vão identificar o aumento de casos de dengue em regiões antes livres de vetores. São as UBSs que lidarão com a piora das doenças respiratórias após cada onda de calor e poluição. Mas ainda há resistência em reconhecer a atenção básica como núcleo estratégico de defesa do sistema de saúde. O que falta: visão, coragem ou interesse?
Tanto o HIV quanto o impacto na saúde gerado pelas mudanças climáticas revelam o que o setor de saúde prefere não discutir: a saúde não é neutra. Ela reproduz, perpetua ou combate desigualdades. Pessoas negras, periféricas, indígenas e pobres foram — e continuam sendo — as mais afetadas por crises mal administradas. Não é possível falar de sustentabilidade, prevenção ou equidade sem assumir que o atual modelo é cúmplice da exclusão. Não há resposta eficaz sem justiça social como princípio fundador.
O Brasil tem expertise acumulada. Já mostrou que pode liderar respostas ousadas em saúde pública. Mas coragem institucional não se herda — se constrói. O enfrentamento do HIV nos ensinou que é possível virar o jogo quando há responsabilidade, escuta e política pública séria. Diante da emergência climática, não temos mais tempo para negação, fragmentação ou burocracia sem propósito. O relógio climático está rodando. E o sistema de saúde não pode, de novo, se esconder atrás do espelho.
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