
por Kleber Carrilho
Publicado em 02/09/2023, às 06h14
Eu não tenho nenhum interesse pela vida pessoal do Faustão. Porém, sem que eu pedisse, algumas pessoas me mandaram notícias sobre ele esta semana. Disseram que ele não era uma boa pessoa, que tinha ganhado muito dinheiro e que comprou um lugar na fila para receber um coração novo de graça.
Então, já que enviaram essas informações, vou falar do que interessa. Como profissional e estudioso da comunicação que sou, considero que Fausto Silva pode ser visto como uma pessoa competente, que se beneficiou do que ocorre (ou ocorria) no Brasil, como a grande audiência de apenas uma rede de televisão, e ganhou dinheiro com isso.
Neste contexto, podemos discutir o modelo e a função que a televisão teve na formação do ambiente político e social brasileiro das últimas décadas, mas isso nada tem a ver com o coração que o ele recebeu. A discussão é outra, que não cabe aqui. Ou até cabe, mais vai ocupar várias semanas.
Como também sou pesquisador em Ciência Política e, por isso, me interesso pela forma como o Estado (e tudo o que está em volta dele) se relaciona e se comunica com as pessoas, quero levantar este ponto, que considero fundamental em toda essa história do coração.
Se as pessoas ainda não sabem como funciona o SUS, nem como acontecem processos específicos, como a estratégia para distribuição e transplantes de órgãos, o trabalho de comunicação do Estado tem que ser ainda mais eficiente. Mesmo sabendo que há inúmeros profissionais sérios em um sistema que funciona melhor do que na maior parte do mundo, se ainda há dúvidas que permitem com que pessoas levantem suspeitas sobre a lisura dos processos, então tem gente precisando trabalhar mais.
É claro que há outras intenções em quem usa a influência digital para estimular a distribuição de mensagens em massa como ocorreu esta semana. E todas elas têm origem em gente que conhecemos muito bem, que tem interesse na destruição do SUS para substituir por um sistema privado. Quem não se lembra dos ataques durante a pandemia?
Mas, se realmente as pessoas acreditam que existe “esquema” no processo de doação e transplante, isso quer dizer que precisamos usar uma oportunidade como essa para conversar, explicar, argumentar.
Afinal, se alguém realmente tem provas de que algo aconteceu de forma errada, que se manifeste e as apresente. Isso porque, se a intenção era esconder algo mal feito, por que a equipe do Faustão se interessaria em deixar tudo público? Não seria mais fácil fazer tudo sem que ninguém soubesse?
Eu continuo me orgulhando do SUS e de todas as conquistas desde a sua formação. Se há problemas para resolver, vamos a cada um deles para tentar a solução mais rápida, com todo o cuidado de observar as questões científicas envolvidas. Mas não dá para ficar quieto ao ver profissionais e instituições sendo atacados e ficar calado.
Então, que tal aproveitar o momento e conversar com alguém que enviou alguma mensagem sobre isso?
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