
por Kleber Carrilho
Publicado em 10/06/2023, às 07h07
Tenho interagido há muitos anos com o ambiente político, dando aulas a quem quer trabalhar ou já trabalha com isso, aconselhando lideranças, fazendo consultorias e tentando organizar campanhas eleitorais. E uma coisa óbvia, que sempre repito, é: as vitórias políticas acontecem para aqueles que sabem observar o ambiente.
E não estou falando aqui da vitória eleitoral, que é fugaz, e às vezes, em vez de sucesso para um projeto político, traz a derrocada dele. Falo da vitória política no sentido de conseguir transformar a sociedade, trazer novas formas de resolver velhos problemas e, em última instância, inspirar pessoas.
Para saber observar, embora as ferramentas da ciência política possam ajudar (e muito), é principalmente necessário estar aberto ao contraditório, ao novo, àquilo que se desconhece. E, mais do que isso, é preciso abrir mão das certezas.
Quando vejo lideranças que conquistaram sucesso na política, em geral encontro gente que conseguiu se modificar, se adaptar, trabalhar com as possibilidades existentes para chegar ao objetivo principal do seu projeto, aquilo que muita gente chama de propósito.
Aproveito para fazer uma observação do que ocorreu com o presidente Lula. Se você fizer uma viagem aos anos 1980, quando ele começou a disputar eleições, vai ver que a finalidade da política para ele estava lá: tirar as pessoas da pobreza extrema, dar comida para os mais fragilizados, impedir que crianças tenham que trabalhar para ajudar na renda da família.
Os caminhos que ele propunha, no entanto, eram outros. Tinha algumas aproximações com teorias socialistas (nada muito desenvolvido), acreditava em determinados momentos (ou somente dizia) que deveria haver o uso da força para conquistar os objetivos, via no discurso incisivo (quase raivoso) uma forma de despertar as massas contra o domínio da elite e dos grandes empresários.
A realidade, porém, se mostrou diferente do que ele imaginava naquele momento. E, então, vimos a sua capacidade de observação e adaptação. Juntou-se com gente que sabia sobre os temas importantes para o país, com grandes estrategistas (com destaque para José Dirceu) e, vinte anos depois da primeira eleição disputada (para governador em 1982), chegou à Presidência da República.
Olhando hoje, parece que duas décadas passaram rápido, mas estiveram aí três grandes derrotas eleitorais (uma delas muito próximo da vitória, em 1989) e aprendizados para sair do sindicalismo do Grande ABC e chegar às rodas de negociações políticas internacionais.
Agora, mais 20 anos se passaram, e Lula está novamente vivendo momentos de adaptação. Quase aos 80 anos de idade, sem os antigos estrategistas por perto, está observando o ambiente e entendendo que, para retomar os objetivos de proteger os mais pobres, vai ter que abrir mão de alguns caminhos que se apresentaram como boas ideias nos últimos anos.
Portanto, esqueçam-se da ideia de que Lulaserá o presidente do meio ambiente, do desenvolvimento industrial ou de qualquer outro tema. Ele até pode querer que tudo isso seja importante em seu governo, mas somente se estes forem também caminhos para conseguir aquilo que ele queria desde que quis fazer política: tirar as pessoas da pobreza extrema, dar comida para os mais fragilizados, impedir que crianças tenham que trabalhar para ajudar na renda da família.
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