
por Kleber Carrilho
Publicado em 08/04/2023, às 15h08
Hoje é Sábado de Aleluia e, portanto, dia de malhar o Judas. Embora eu nunca tenha batido em um boneco do traidor de Jesus, na minha infância vi alguns desses eventos da criançada nas ruas do Jardim Sapopemba. Não me lembro bem por que nunca participei, mas deve ter a ver com alguma questão religiosa, entre as tantas que me diferenciavam da maioria católica do bairro.
Mas como aqui a minha história pessoal não tem importância, quero refletir sobre o que pode representar esse momento em que, tomadas por um ódio contra alguém, as pessoas dão pauladas até a morte (simbólica, no caso do boneco).
É uma maneira de extravasar a raiva em algo inanimado? É uma representação do que fariam se pudessem ter acesso aos personagens atuais que dão rostos ao boneco? É só uma brincadeira, que não tem relação com a realidade?
Sem levar em conta as questões antropológicas, quero relacionar essa malhação, essa pena de morte sem direito à defesa, ao que ocorre todos os dias nas redes sociais. Escolhidos os Judas do momento, eles são espancados até a morte (também simbólica, mas que pode levar à física) por todos que podem ter um pedaço de pau, que são os comentários e os compartilhamentos.
E, nesta pena sem ausência de tribunal, todos se consideram acusadores, juízes e carrascos. Em vez de atacarmos as ideias, malhamos as pessoas. Consequentemente, outras pessoas mantêm as ideias vivas, se espalham e se multiplicam, justamente porque os Judastêm defensores que o ressuscitam e se sentem no direito de gritar mais alto aquilo que foi dito antes.
Se olharmos para muito do que aconteceu no ambiente de polarização política no Brasil dos últimos tempos, sempre há uma malhação (em geral digital) no princípio. Quando um deputado machista é malhado, só ganha mais seguidores. Quando uma personalidade é acusada de ser racista e cancelada por isso, consegue garantir um cargo de deputado na próxima eleição.
Então, será que malhar vale a pena? Ou apenas torna as ideias que devem ser combatidas ainda mais perigosas?
Sei que, neste momento, tem gente pensando que estou aqui querendo “passar pano” para machistas, homofóbicos, racistas e transfóbicos, mas de novo só estou apontando para uma pergunta: quanto do machismo, da homofobia, do racismo e da transfobia diminuem cada vez que alguém é malhado ou cancelado?
Será que esses movimentos não criam e dão visibilidade a coisas estranhas como os red pills, que se sentem na necessidade de se juntar para louvar os preconceitos? Ou mais: isso não resulta em mais ataques a tantas minorias, quando indivíduos se sentem na missão de defender a honra e as ideias de quem sofreu tentativas de cancelamento?
Afinal, porta-vozes de ideias terríveis existem aos montes, e, ao atacá-los, em vez de desconstruir as ideias, a tendência é que eles se fortaleçam. E alguns casos até cheguem à Presidência da República.
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