Há uma semana estive visitando uma comunidade na costa sul da Califórnia. O COVID-19 já era mencionado, mas sentia que o medo não havia dominado aquele grupo

Redação Publicado em 20/03/2020, às 00h00 - Atualizado às 19h21
Há uma semana estive visitando uma comunidade na costa sul da Califórnia. O COVID-19 já era mencionado, mas sentia que o medo não havia dominado aquele grupo de pessoas da mesma maneira que sinto que aconteceu aqui em São Francisco ou com minha família e amigos no Brasil e na Europa. Havia precaução e alerta, mas no mais íntimo, havia segurança e confiança. Isso me fez refletir sobre onde nos perdemos como sociedade e o que tudo isso pode vir nos mostrar.
Percebi que aquela sensação de solidez da comunidade se dava ao fato de eles levarem uma vida sustentável no sentido mais literal. Haviam plantações locais garantindo a autossustentabilidade dos alimentos, o entretenimento era mais voltado para a criação do que para o consumo, havia uma lareira comunitária para trocar e apresentar ideias. A música era natural durante as refeições onde o wi-fi era desligado durante esse momento. O olhar para a natureza era com cuidado e integração. Tudo isso somado a um forte sentimento de pertencimento, colaboração e cuidado uns com os outros.
Comparando essa realidade com o nosso atual estilo mundano, onde tiveram inúmeros casos de brigas por papel higiênico, sinto que criamos um esquema econômico-social tão sofisticado, complexo e desconectado que o comprometimento desse status quo traz junto medos atrelados a escassez. Estamos distantes da terra, logo, do nosso alimento; estamos desconectados em nossa casa onde sequer conhecemos nossos vizinhos; nos desconectamos da arte e da música; colocamos o planeta e os recursos em segundo, talvez terceiro plano. Estamos essencialmente mais do lado dos consumidores do que dos criadores. Quando me dou conta, olho ao redor e enxergo todo um aparato supérfluo e distante da nossa essência e com ele, vem o medo e a insegurança.
Sim, existe uma pandemia onde os cuidados são necessários, mas minha ideia é trazer uma reflexão mais profunda sobre o sistema em que estamos operando. Uma vez que ela passar, e espero que seja breve, queremos continuar operando no mesmo formato?
Minha ideia não é polarizar os estilos de vida, mas sim, aproveitar esse momento de crise para questionar o modelo econômico-social que queremos viver. A mudança pode não acontecer do dia para noite, mas tenho certeza que enxergar o caos é o primeiro estágio para construirmos algo que faça mais sentido e que traga mais conexão, propósito e segurança para todos.

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