
por Fábio Behrend
Publicado em 06/03/2026, às 08h00
Tem um erro importante de interpretação nas reportagens sobre o escândalo da semana na cidade, envolvendo a secretaria de Turismo e a SPTuris. Trata-se da tese de que os contratos de uma empresa com a prefeitura foram celebrados sem licitação. A afirmação foi repetida dezenas de vezes por praticamente todos os veículos que repercutiram o caso, mesmo alguns deles citando, mas não explicando, a existência de “atas de preços”.
A SPTuris, empresa da prefeitura responsável por toda a infraestrutura necessária para a realização de qualquer tipo de evento em qualquer canto da cidade, do copinho de água na inauguração da pracinha aos carregadores e estrutura de palco do réveillon na Paulista, tem nada menos do que 180 atas de preços. Dificilmente exista alguma empresa pública, prefeitura ou secretaria, em qualquer lugar no Brasil, que não tenha suas atas de preços. As atas servem para eventos, material de escritório, de construção civil, de comunicação visual, de manutenção de equipamentos, servem pra qualquer coisa de uso frequente. Mas afinal, o que é uma ata de preços?
“A ata de registro de preços, prevista na Lei nº 14.133, é uma espécie de cadastro de fornecedores e valores definido previamente por licitação (geralmente por pregão). As empresas disputam, os preços ficam registrados e, durante um período (normalmente de 1 ano), o poder público pode contratar esses serviços ou produtos conforme a necessidade, sem abrir uma nova licitação, apenas assinando um contrato a cada demanda, com preços e prazos de entrega garantidos previamente”. Ou seja, qualquer ata de preços tem origem numa licitação. E pronto.
Da Praça do Ciclista até a Praça Osvaldo Cruz, a Avenida Paulista tem 18 quarteirões, 2.800 metros de extensão e 48 metros de largura, incluindo as calçadas e o canteiro central. São 134.400m². Em cada metro quadrado cabem 4 pessoas. Isso quer dizer que a Paulista fica lotada com 537.600 pessoas. Mas dá pra forçar um pouquinho e colocar 5 pessoas por metro quadrado... aí teríamos 672 mil pessoas. Arredondando tudo pra cima, tirando eventuais grades de proteção, colando rosto com rosto e um monte de gente de cavalinho, poderíamos chegar a 700, 720 mil pessoas, um tremendo exagero.
O único evento que lota os 18 quarteirões da Paulista é a Parada do Orgulho LGBTQIA+, isso no auge da frequência de público. A organização sempre viaja e no ano passado falou em 4 milhões de pessoas durante todo o domingo. Vc acha possível? Não é. É contra as leis da física e qualquer capacidade do sistema viário e/ou do transporte público. Explico: para que 4 milhões de pessoas tenham participado, o evento teria que cobrir toda a Paulista e a Consolação (mais 150 mil pessoas, no máximo) ao mesmo tempo, das 10h às 18h, com o público sendo 100% renovado a cada 2 horas. Não rola.
Na matemática mais realista (4 pessoas por m²), em cada quarteirão caberiam cerca de 29 mil pessoas. No evento do Nicolas Ferreira domingo passado, no auge, por volta de 15h, havia pouco mais da metade do quarteirão entre a Alameda Casa Branca e a Peixoto Gomide ocupado e com apenas uma faixa de cerca de 20 metros de extensão (perto do trio elétrico) com densidade maior de pessoas. Do outro lado do caminhão de som, a mesma situação - meio quarteirão (entre a Peixoto Gomide e a Min. Rocha Azevedo) ocupado, aglomeração só perto do trio elétrico. Houve gente falando em 100 mil pessoas. A USP falou em 20,4 mil – mas os drones não conseguem registrar a galera embaixo das árvores do Parque Trianon. O Poder 360 falou em 22.800 pessoas usando imagens e critérios parecidos com a matemática que utilizei acima. Escrevo tudo isso só pra trazer um pouco de luz (e contas reais) ao tema. Mas principalmente para a turma que torce (ou distorce) pare de brigar com os amiguinhos por bobagem, querendo impor uma narrativa tão frágil quanto a confiança do brasileiro nas instituições. Bom final de semana.
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