Jogadores argentinos exibiram mensagem política após vitória sobre a Inglaterra na semifinal da Copa do Mundo, reacendendo a disputa histórica pelas Ilhas Malvinas e colocando a seleção campeã do mundo na mira disciplinar da Fifa antes da decisão contra a Espanha.

Ana Beatriz Silva Publicado em 16/07/2026, às 17h32
A Argentina se classificou para a final da Copa do Mundo de 2026, mas a celebração dos jogadores com uma faixa política sobre as Ilhas Malvinas gerou uma reação do governo britânico, que pediu uma investigação da Fifa.
O gesto foi realizado por Lisandro Martínez e Giovani Lo Celso após a vitória sobre a Inglaterra, e a Fifa possui regulamentação para punir manifestações políticas em eventos esportivos, podendo aplicar multas ou advertências.
A Fifa agora deve decidir se considera a faixa uma celebração emocional ou uma violação das regras, o que pode impactar a preparação da Argentina para a final contra a Espanha, marcada para Nova Jersey.
A classificação da Argentina para a final da Copa do Mundo de 2026 ganhou um desdobramento político fora das quatro linhas. Após vencer a Inglaterra por 2 a 1 na semifinal, em Atlanta, jogadores argentinos celebraram no gramado com uma faixa com a frase “Las Malvinas son Argentinas”, em referência à reivindicação argentina sobre as Ilhas Malvinas, chamadas de Falkland Islands pelo Reino Unido. O gesto levou o governo britânico a cobrar uma investigação formal da Fifa.
Segundo registros da imprensa internacional, Lisandro Martínez e Giovani Lo Celso apareceram segurando a faixa durante a comemoração depois da partida. A Reuters informou que o cartaz tinha caráter político e que a entidade máxima do futebol ainda não havia se manifestado oficialmente sobre uma eventual abertura de procedimento disciplinar no momento da apuração.
A reação em Londres foi imediata. Integrantes do governo britânico classificaram a manifestação como inadequada e defenderam que política e futebol sejam mantidos separados durante a Copa do Mundo. Um porta-voz do primeiro-ministro Keir Starmer reforçou que o Reino Unido considera a autodeterminação dos moradores das ilhas como ponto central da disputa.
A Fifa tem base regulamentar para analisar o episódio. O Código Disciplinar da entidade prevê punição para quem utiliza evento esportivo para manifestação de natureza não esportiva. O mesmo código também responsabiliza associações e clubes por mensagens políticas, ideológicas, religiosas ou ofensivas dentro ou ao redor dos estádios.
As punições possíveis variam conforme o entendimento da Fifa sobre autoria, contexto e gravidade do caso. O Código Disciplinar prevê advertência, repreensão, multa e, para pessoas físicas, suspensão por número determinado de partidas ou por período específico. Para entidades, há sanções mais amplas, mas a tendência em casos semelhantes costuma ser multa ou advertência, salvo se a Fifa entender que houve provocação grave, reincidência relevante ou violação disciplinar mais ampla.
O caso ocorre em um momento sensível para a seleção argentina. A equipe está classificada para a final contra a Espanha, marcada para East Rutherford, em Nova Jersey. Por isso, qualquer decisão disciplinar ganha peso adicional, embora uma exclusão da decisão seja considerada improvável a partir dos precedentes conhecidos.
A própria Argentina já foi punida por episódio semelhante. Em 2014, jogadores exibiram a mesma frase em um amistoso preparatório antes da Copa do Mundo no Brasil. Na ocasião, a federação argentina recebeu multa de 30 mil francos suíços, equivalente a cerca de 37 mil dólares na conversão citada pela Associated Press.
Outros precedentes também ajudam a explicar o risco. A Fifa já puniu um jogador da Coreia do Sul por exibir uma faixa ligada à disputa territorial com o Japão nas Olimpíadas de Londres, em 2012. No Mundial de 2022, a federação da Sérvia foi multada em 20 mil francos suíços por uma faixa política sobre Kosovo exibida no vestiário antes de uma partida contra o Brasil.
A disputa pelas Ilhas Malvinas é uma das feridas históricas mais profundas entre Argentina e Reino Unido. O arquipélago fica no Atlântico Sul, a cerca de 480 km da costa argentina e a aproximadamente 13 mil km do Reino Unido. A região é administrada pelos britânicos, enquanto Buenos Aires sustenta que herdou o território da Espanha após a independência e que Londres tomou controle das ilhas em 1833.
O conflito chegou ao ponto mais dramático em 1982, quando a ditadura militar argentina invadiu as ilhas e iniciou uma guerra de dez semanas contra o Reino Unido. O confronto terminou com vitória britânica e deixou 649 militares argentinos, 255 britânicos e três moradores das ilhas mortos.
Dentro desse contexto, a semifinal entre Argentina e Inglaterra já carregava peso simbólico antes mesmo de a bola rolar. A rivalidade esportiva entre os dois países também é marcada por episódios históricos em Copas do Mundo, mas a faixa exibida em Atlanta recolocou no centro do debate uma questão diplomática que permanece aberta há décadas.
Agora, a Fifa terá de decidir se trata o episódio como uma comemoração emocional de jogadores após uma vitória histórica ou como uma violação clara às regras contra manifestações políticas em eventos esportivos. A resposta pode não tirar a Argentina da final, mas pode transformar a preparação para a decisão em mais um capítulo de tensão entre futebol, diplomacia e memória histórica.
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