Foram dois parágrafos com pinta de nariz de cera para chegar no perplexo elogio que faço ao Corinthians ao fim da última rodada da fase classificatória do

Redação Publicado em 10/05/2021, às 00h00 - Atualizado às 18h45
Em qualquer situação minimamente civilizada na sociedade e no esporte, qualquer discussão sobre entrega de um jogo com derrota de propósito para prejudicar o rival ou para ter benefício futuro na competição seria rechaçada ou em maciça maioria tratada como deveria ser, isto é, não se discute o espírito esportivo, ele é a mola que catapulta praticantes e adeptos do esporte. Joga-se para ganhar, disputa-se para ganhar, não para perder, muito menos por querer.
Em qualquer outro cenário que não este lamentável, medíocre e odioso que o país vive no momento seria impossível encontrar em grande número defensores da ideia de seu próprio time entregando o jogo para prejudicar o grande rival.
Majoritariamente, a condenação a quem fraudasse o espírito do esporte seria o natural. No entanto, nada é natural neste Brasil em que se briga com a ciência, em que se nega a realidade e deste desdém pessoas morrem como se estivessem num consórcio. Por lance ou por sorteio, tantas as mortes evitáveis por uma doença que já tem vacina para debelá-la ou controlá-la.
Foram dois parágrafos com pinta de nariz de cera para chegar no perplexo elogio que faço ao Corinthians ao fim da última rodada da fase classificatória do Paulistão. Foi assunto a semana inteira se o clube entregaria o jogo para o Novorizontino de forma a evitar que o Palmeiras tivesse chance de se classificar à próxima etapa do campeonato.
Vagner Mancini até colocou time reserva, o que por si só seria razoável já que entrou na rodada classificado. Porém, Mancini formatou sua equipe para ganhar do Novorizontino, mesmo que a consequência fosse ajudar a classificar o grande rival Palmeiras. Houve parte grande da torcida corintiana pedindo que perdesse de propósito. Houve boa parte da imprensa que tratou com naturalidade esta perspectiva.
Atônito, fiquei ouvindo com que desfaçatez se falou sobre a possibilidade de profissionais jogarem para perder por querer. Felizmente, Mancini e seus jogadores honraram o nome, sobrenome e a família que cada um tem. Não deixaram colar nas costas o rótulo de profissional que entrega jogo. Porque quem entrega uma vez, pode entregar outra e outra e outra. Porque quem fez, fará.
Vagner Mancini e, antes, os dirigentes corintianos que nunca deram guarida à tese do perder para prejudicar alguém merecem deste colunista o aplauso que nem deveria ser relevante. O certo era não ser necessário elogiar profissionais por se comportarem como profissionais.
Entretanto, neste faroeste brasileiro em que a morte é tratada com tanta intimidade, me obriguei a manchetear o “Parabéns, Corinthians!” que eu gostaria de dar pessoalmente a Mancini pela postura. A ele, na condição de comandante, porque estariam representados os jogadores que correram e se entregaram para não entregar o jogo e sim para ganhá-lo.
Está feito este bizarro porém necessário elogio. O Corinthians pode até perder o título para o Palmeiras, que só se classificou pela ajuda do grande rival. Mas fosse eu um corintiano restaria, na eventual derrota, com um enorme orgulho do meu distintivo.
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Fonte: Ge – Globo Esporte.
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