Escritor optou pelo procedimento após o agravamento do mal de Alzheimer e deixou uma carta justificando a decisão.

William Oliveira Publicado em 23/10/2024, às 10h18
Na manhã desta quarta-feira (23), o escritor e compositor Antonio Cícero faleceu na Suíça após optar por um procedimento de morte assistida devido ao agravamento do mal de Alzheimer. Aos 79 anos, o membro da Academia Brasileira de Letras (ABL) deixou uma carta em que esclarece sua decisão, destacando o desejo de manter a dignidade tanto na vida quanto na morte.
Natural do Rio de Janeiro, Antonio Cícero integrou a ABL desde agosto de 2017, ocupando a cadeira 27. Sua partida foi oficialmente confirmada pela instituição. O legado do autor se estende não apenas à literatura, mas também à música brasileira, onde suas contribuições deixaram marcas indeléveis.
Cícero era irmão da cantora e compositora Marina Lima, com quem colaborou em diversas ocasiões. Suas poesias ganharam vida nas canções interpretadas por Marina, incluindo sucessos como "Fullgás", "Para Começar" e "À Francesa". Além disso, ele é coautor de "O Último Romântico", famosa na voz de Lulu Santos.
Ao longo de sua carreira, Antonio Cícero trabalhou com vários outros artistas consagrados, como Waly Salomão, João Bosco, Orlando Morais e Adriana Calcanhotto, consolidando-se como uma figura influente na cena cultural do país.
Leia a carta de Antonio Cícero na íntegra:
"Queridos amigos,
Encontro-me na Suíça, prestes a praticar eutanásia. O que ocorre é que minha vida se tornou insuportável. Estou sofrendo de Alzheimer.
Assim, não me lembro sequer de algumas coisas que ocorreram não apenas no passado remoto, mas mesmo de coisas que ocorreram ontem.
Exceto os amigos mais íntimos, como vocês, não mais reconheço muitas pessoas que encontro na rua e com as quais já convivi.
Não consigo mais escrever bons poemas nem bons ensaios de filosofia.
Não consigo me concentrar nem mesmo para ler, que era a coisa de que eu mais gostava no mundo.
Apesar de tudo isso, ainda estou lúcido bastante para reconhecer minha terrível situação.
A convivência com vocês, meus amigos, era uma das coisas – senão a coisa – mais importante da minha vida. Hoje, do jeito em que me encontro, fico até com vergonha de reencontrá-los.
Pois bem, como sou ateu desde a adolescência, tenho consciência de que quem decide se minha vida vale a pena ou não sou eu mesmo.
Espero ter vivido com dignidade e espero morrer com dignidade.
Eu os amo muito e lhes envio muitos beijos e abraços!"
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