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“Buracos” no cérebro de Kim Kardashian? Cientistas contestam leitura de exame exibido no reality

Método SPECT virou moda entre celebridades, mas pesquisadores afirmam que ele não serve para diagnóstico em pessoas saudáveis

Debate sobre a eficácia de exames de imagem cerebral cresce após Kim Kardashian exibir resultados alarmantes em reality show - Imagem: Reprodução/Redes Sociais
Debate sobre a eficácia de exames de imagem cerebral cresce após Kim Kardashian exibir resultados alarmantes em reality show - Imagem: Reprodução/Redes Sociais

Gabriela Nogueira Publicado em 05/12/2025, às 17h52


A popularização de exames sofisticados de imagem cerebral entre celebridades reacendeu um debate importante na comunidade médica: até que ponto esses testes são realmente necessários para pessoas que não apresentam qualquer histórico ou sintoma de doença neurológica?

A discussão ganhou força após um episódio recente do reality show “The Kardashians”, no qual Kim Kardashian exibiu imagens de uma Tomografia por Emissão de Fóton Único, conhecida como SPECT. O exame mostrou o que foi descrito como “baixa atividade” cerebral e até “buracos”, termos que chamaram atenção pela carga alarmista, mas que, segundo especialistas, não têm respaldo científico nessa forma de interpretação.

Médicos alertam que, quando realizados em indivíduos saudáveis, exames como o SPECT tendem a provocar mais dúvidas do que respostas. Além de expor o paciente a substâncias radioativas sem necessidade clínica, o procedimento pode gerar ansiedade, incentivar tratamentos inadequados e levar a gastos elevados com terapias que não têm comprovação de eficácia.

O SPECT foi criado na década de 1970 e passou a ser aplicado ao estudo do cérebro a partir de 1990. Seu uso é válido em contextos clínicos muito específicos, especialmente para avaliar o fluxo sanguíneo em órgãos ou identificar condições já suspeitas. O problema surge quando ele é oferecido como um “rastreamento geral da saúde cerebral”, prática adotada por algumas clínicas e divulgada amplamente por figuras como as irmãs Kardashian-Jenner.

A clínica apresentada no programa oferece o exame como ferramenta para avaliar desde estresse até questões comportamentais e de relacionamentos. As imagens coloridas e visualmente impressionantes ajudam a vender a ideia de que o teste é capaz de diagnosticar diversos problemas emocionais e neurológicos, mas médicos afirmam que essa interpretação não tem base consistente. Fatores comuns, como o horário do dia ou o nível de ansiedade do paciente, podem alterar o fluxo sanguíneo cerebral e resultar em imagens que parecem anômalas, embora não indiquem nenhuma doença.

O caso de Kim Kardashian também reascendeu discussões sobre diagnósticos prévios. A socialite chegou a revelar que um exame de ressonância magnética identificou um aneurisma, mas poucos detalhes sobre o quadro foram divulgados. Estudos atuais não apontam relação entre esse achado e as imagens apresentadas no SPECT.

Outro ponto de preocupação é o custo. Um exame SPECT pode ultrapassar US$ 3.000, e médicos relatam que muitos pacientes, ao se depararem com resultados vagos ou mal interpretados, acabam buscando tratamentos alternativos ou séries de consultas desnecessárias, ampliando ainda mais os gastos.

Para especialistas, o risco maior está em transformar métodos de diagnóstico em produtos de consumo aspiracional. Ao associar exames sofisticados a uma rotina de autocuidado adotada por celebridades, cria-se a impressão de que esses procedimentos são essenciais para qualquer pessoa preocupada com a própria saúde, quando, na prática, podem trazer mais prejuízos do que benefícios.

Cientistas reforçam que o uso do SPECT deve permanecer restrito a situações clínico-neurológicas claramente justificadas. Para indivíduos saudáveis, o mais recomendado continua sendo manter acompanhamento médico regular e buscar avaliações baseadas em evidências, não em tendências ou promessas de análises profundas do “funcionamento do cérebro”.


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