Produção menor e exportações fortes indicam retomada da pressão sobre os valores

Gabriela Nogueira Publicado em 20/12/2025, às 15h41
O preço da carne bovina no Brasil segue cada vez mais conectado ao apetite da China, principal destino do produto nacional. Após um período de forte alta até meados de 2025, o mercado começou a dar sinais de acomodação no segundo semestre, impulsionado por uma produção histórica que ampliou a oferta e aliviou a pressão sobre os valores no varejo.
O Brasil alcançou um marco importante ao assumir a liderança mundial na produção de carne bovina, superando os Estados Unidos, segundo dados do Departamento de Agricultura norte-americano. Esse avanço, no entanto, não garante estabilidade no médio prazo. Analistas do setor avaliam que o cenário pode mudar já em 2026, quando a produção tende a recuar e as exportações devem seguir em ritmo elevado.
No segundo semestre de 2025, o comportamento dos preços começou a refletir esse excesso de oferta. O índice de inflação das carnes, que havia acumulado alta superior a 23% em junho, passou a desacelerar nos meses seguintes e fechou novembro em torno de 5%, de acordo com números do IBGE. A mudança foi sentida diretamente pelo consumidor, que vinha enfrentando sucessivos reajustes nos últimos anos.
Um dos fatores centrais para essa virada foi o volume recorde de abates. Apenas no terceiro trimestre de 2025, mais de 11 milhões de cabeças de gado foram abatidas, o maior número já registrado desde o início da série histórica. O dado chamou atenção do mercado pelo aumento expressivo no abate de fêmeas, que superou o de machos pela primeira vez, sinalizando um ajuste importante no ciclo pecuário.
Além da oferta elevada, o limite do orçamento das famílias também pesou. Com a carne bovina cada vez mais cara, parte dos consumidores passou a substituir o produto por proteínas mais baratas, como frango e ovos. Esse movimento ajudou a conter novos aumentos, mesmo com a demanda externa aquecida.
As restrições impostas pelos Estados Unidos à carne brasileira tiveram impacto limitado nesse processo. A indústria conseguiu redirecionar as vendas para outros mercados, mantendo o volume exportado em patamar elevado e reduzindo os efeitos da perda momentânea do mercado norte-americano.
Para 2026, a expectativa é de um novo ajuste. A projeção do setor é que os produtores reduzam o envio de fêmeas para o abate, priorizando a recomposição do rebanho. Com isso, a oferta tende a diminuir, o que pode provocar uma nova rodada de altas nos preços, ao menos no início do ano.
Nesse cenário, as decisões da China ganham peso ainda maior. O país avalia medidas para proteger sua produção interna, incluindo possíveis limites às importações. Caso essas ações avancem, o impacto pode ser significativo tanto para os preços no mercado interno quanto para a estratégia da pecuária brasileira nos próximos anos.
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