Enquanto o governo amplia programas de renegociação de dívidas e crédito subsidiado, economistas apontam que parte do mercado financeiro segue crescendo mesmo com juros elevados, reduzindo o efeito da Selic sobre a economia e dificultando o controle da inflação pelo Banco Central.

Ana Beatriz Publicado em 11/05/2026, às 10h12
O avanço do Novo Desenrola Brasil e de linhas de crédito com juros reduzidos tem gerado preocupações entre economistas, dificultando o trabalho do Banco Central em controlar a inflação, que permanece alta mesmo com a Selic em 14,5% ao ano.
Cerca de 80% das famílias brasileiras estão endividadas, e o programa oferece condições facilitadas para a renegociação de dívidas, o que pode enfraquecer a eficácia da política monetária tradicional.
Enquanto o governo busca aliviar o endividamento e estimular a economia, o Banco Central enfrenta o desafio de desacelerar o consumo, criando um impasse entre as duas instituições sobre a melhor abordagem para a situação econômica.
O avanço do Novo Desenrola Brasil e de linhas de crédito menos sensíveis à taxa Selic tem preocupado economistas e aumentado o desafio do Banco Central para conter a inflação no país. Segundo informações publicadas pelo jornal O Globo, esse tipo de crédito avançou cerca de 12% e passou a reduzir o impacto tradicional da política monetária sobre a economia.
Na prática, mesmo com juros elevados, parte do consumo e do endividamento continua sendo estimulada por programas com taxas reduzidas, garantias públicas e condições facilitadas de pagamento. Isso enfraquece um dos principais instrumentos usados pelo Banco Central para frear a inflação: o aumento da taxa básica de juros.
Atualmente, a Selic está em 14,5% ao ano, um dos maiores patamares reais de juros do mundo. O Banco Central argumenta que o nível elevado é necessário para desacelerar o consumo, reduzir a circulação de dinheiro na economia e controlar a alta dos preços.
Por outro lado, o governo federal aposta no Novo Desenrola como forma de aliviar o endividamento recorde das famílias brasileiras e estimular a retomada econômica. Dados recentes apontam que cerca de 80% das famílias brasileiras possuem algum tipo de dívida, enquanto quase 30% têm contas em atraso.
A nova fase do programa amplia o alcance da renegociação e inclui famílias de baixa renda, estudantes, micro e pequenas empresas, produtores rurais, aposentados e servidores públicos. O programa permite renegociar dívidas com juros limitados a até 1,99% ao mês, além de descontos que podem chegar a 90% em determinados casos.
Entre as principais modalidades contempladas estão dívidas de cartão de crédito, cheque especial e crédito pessoal. O governo também passou a oferecer garantias por meio do Fundo de Garantia de Operações, mecanismo que reduz o risco para os bancos e facilita a concessão de novos empréstimos.
Especialistas alertam, porém, que o crescimento acelerado desse crédito subsidiado pode criar uma espécie de “blindagem” contra a Selic. Isso porque, mesmo com os juros altos definidos pelo Banco Central, programas públicos continuam irrigando a economia com dinheiro mais barato, mantendo o consumo aquecido.
O cenário cria um impasse entre o Ministério da Fazenda e o Banco Central. Enquanto a equipe econômica defende medidas para estimular consumo, renegociar dívidas e ampliar o acesso ao crédito, o BC tenta desacelerar a economia para conter a inflação dentro da meta estabelecida.
Além do impacto econômico, o Novo Desenrola também ganhou um caráter social e político. O governo argumenta que milhões de brasileiros estavam fora do sistema financeiro por causa da inadimplência e que a renegociação permite recuperar o acesso ao crédito e reorganizar a vida financeira das famílias.
Economistas, no entanto, avaliam que o excesso de programas de crédito subsidiado pode reduzir a eficiência da política monetária no longo prazo, obrigando o Banco Central a manter juros elevados por mais tempo para produzir o mesmo efeito sobre a inflação.
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