Regiões mais promissoras para essa iniciativa estão localizadas nos estados de São Paulo, Mato Grosso do Sul e Mato Grosso

William Oliveira Publicado em 24/11/2024, às 11h35
Um estudo recente conduzido pelo Laboratório Nacional de Biorrenováveis (LNBR), pertencente ao Centro Nacional de Pesquisa em Energia e Materiais (CNPEM), e publicado na revista Nature, aponta que o Brasil possui potencial para substituir plásticos derivados de combustíveis fósseis por alternativas de base biológica, sem provocar impactos significativos na expansão das áreas agrícolas, na biodiversidade ou nas reservas hídricas, desde que a gestão da reciclagem seja executada com cuidado.
A pesquisa projetou cenários até 2050, cruzando informações sobre terras agricultáveis que poderiam ser destinadas ao cultivo de cana-de-açúcar como alternativa a outras utilizações atuais, especialmente em áreas que não são sustentáveis para uso contínuo, como pastagens degradadas. Esse modelo poderia gerar benefícios para os estoques de carbono, recursos hídricos e biodiversidade, ao privilegiar o uso dessas áreas comprometidas e utilizar a infraestrutura já existente de usinas como ponto inicial.
Conforme o artigo, o cenário mais favorável propõe a utilização de 3,55 milhões de hectares sem prejuízo ambiental, frente a uma demanda global potencial de 22 milhões de hectares. As regiões mais promissoras para essa iniciativa estão localizadas nos estados de São Paulo, Mato Grosso do Sul e Mato Grosso, locais que têm enfrentado aumento no número de queimadas, conforme dados do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais.
Os pesquisadores projetaram um aumento no consumo de petróleo para produção plástica dos atuais 5% a 7% da produção total para 20%, contribuindo com até 15% das emissões globais de carbono. Nesse contexto, há uma considerável oportunidade para expandir a produção de polietileno biológico (bioPE). Atualmente em desenvolvimento a partir de culturas como mandioca e batata-doce, o bioPE produzido com cana-de-açúcar se destaca como uma opção viável, com múltiplas universidades e empresas oferecendo soluções inovadoras. Segundo Thayse Hernandes, doutora em Planejamento de Sistemas Energéticos pela Universidade de Campinas e líder do estudo no CNPEM, este insumo pode desempenhar um papel crucial em uma economia de baixo carbono.
Em entrevista à Agência Brasil, Hernandes enfatizou a necessidade do engajamento governamental no ciclo de reciclagem. O estudo utilizou o conceito de pegada de carbono para analisar o potencial de redução das emissões ao longo do ciclo completo. Embora as tecnologias estejam avançadas, Hernandes destacou que "o grande desafio é garantir o descarte adequado e a reinserção do material reciclado na cadeia produtiva". Apesar da origem biológica do bioPE contribuir para a captura e armazenamento de carbono atmosférico, ele não é biodegradável, mantendo assim desafios semelhantes aos dos plásticos convencionais após o descarte.
A pesquisadora também sublinhou a importância da coleta eficiente como um entrave crucial. A falta dessa estrutura pode resultar em resíduos plásticos atingindo os oceanos. "Isso é uma questão de governança, por exemplo, das prefeituras, dos estados, do próprio governo federal", afirmou Hernandes. Sem melhorias na coleta e reciclagem, mesmo com um processo produtivo avançado e uso racional da terra, os impactos ambientais negativos persistirão.
Em cenários onde essas questões logísticas não são solucionadas eficientemente, a produção de bioPE pode enfrentar competição por terras agrícolas com outras culturas, gerando tensões em comunidades locais ou sobre áreas protegidas e intensificando os impactos climáticos adversos.
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