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Dramas familiares

Dia dos Avós! 3 relatos emocionantes de netos e seus velhinhos na pandemia: "Nos esforçarmos para proteger. E ele partiu"

Embora seja uma medida de proteção, o distanciamento social também afetou o relacionamento dos familiares com os idosos

A convivência entre netos e avós foi abalada pela pandemia de Covid - Imagem: Freepik
A convivência entre netos e avós foi abalada pela pandemia de Covid - Imagem: Freepik

Publicado em 25/07/2022, às 16h51 Mateus Omena


Na terça-feira (26) é celebrado o Dia dos Avós, data especial para os netos homenagearem seus avós e fortalecerem os vínculos com os mais velhos da família.

Entretanto, as condições impostas pela pandemia de covid-19 levaram a um afastamento forçado entre os idosos e seus parentes, para evitar o contágio pelo vírus. Mesmo com a necessidade do lockdown como medida de saúde pública, a saudade atingiu diversas famílias.

Para contornar essa barreira, muitos netos e filhos usaram a tecnologia para manter a comunicação com os mais velhos, a fim de aliviar a sensação de solidão, garantir o bem-estar de todos os membros e para demonstrar afeto.

Com a diminuição de casos e óbitos pela doença, em virtude da vacinação, muitos netos puderam se reaproximar de seus avôs. Mas o distanciamento social, em alguns casos, transformou muitas famílias, inclusive a relação entre avós e netos.

O Diário de S.Paulo conversou com três jovens que compartilharam suas experiências com seus avós durante o pico da pandemia, os desafios para manter contato e recordações preciosas.

Amantes de literatura

Família Guitti
Francisco Guitti em momento da infância com o avô José Carlos Guitti. Imagem: arquivo pessoal

Em entrevista ao Diário de S.Paulo, o estudante Francisco Guitti, 28 anos, compartilha recordações de sua vida com o avô materno José Carlos Guitti, que faleceu em junho de 2022, aos 78 anos, de causas naturais.

O jovem revela que a conexão com o avô era muito forte, especialmente por ter sido o primeiro neto. “Quando eu nasci, ele ainda era muito novo, então em alguns momentos ele agia como se fosse meu pai. Durante muito tempo eu morei com ele e fomos muito próximos”.

Francisco nasceu em Londrina, no Paraná, mas estuda comunicação social em São Paulo. Nas férias, ele sempre fez questão de visitar o avô em sua casa. Apesar da distância, os dois mantinham contato pela internet, onde Francisco e José Carlos trocavam e-mails sobre diversos assuntos, especialmente literatura.

“Meu avô era médico e tinha uma vida ativa. Os livros eram uma das paixões dele. Ele escrevia crônicas e me enviava vários textos. E eu também entregava para ele alguns que eu produzia”, contou. “Também fazíamos debates sobre literatura, poesia e escritores. Ele era um grande fã do Guimarães Rosa e lia diversas obras do autor”.

No entanto, os diálogos virtuais com o avô começaram a diminuir devido aos problemas de saúde. E as barreiras de comunicação ficaram maiores no início da pandemia de covid-19.

“Em razão da idade avançada e dos problemas de saúde, meu avô estava em situação de fragilidade. Então, eu e minha família evitávamos o contato físico. Apenas meu tio, que morava com ele desde muito tempo, permaneceu na casa para cuidar do pai. Enquanto que os outros filhos tentavam ajudar à distância”, disse.

“Como ele já estava muito doente, ele passou a usar menos o e-mail e ficou mais difícil se comunicar com ele diretamente. Recebíamos notícias através do meu tio. Meu avô conversava conosco apenas por telefone, porque ferramentas modernas de videochamada como Zoom ou Meet, ele rejeitava”.

Segundo Francisco, o distanciamento do avô trouxe muita saudade, mas o idoso foi quem mais sofreu com a nova realidade. “Ele sentia raiva, solidão, saudade e um pouco de ansiedade por causa do afastamento forçado pela pandemia. Meu avô já estava um pouco deprimido antes da crise, principalmente depois que ele se aposentou, porque ele tinha muito orgulho de trabalhar. Esses fatores mexeram com ele”.

O reencontro entre o avô e o neto ocorreu apenas em dezembro de 2021, depois que o idoso e os outros familiares foram vacinados contra o vírus.

“Demoramos quase dois anos para se ver novamente. A reaproximação foi um momento interessante, porque pareceu uma visita comum, como se não houvesse pandemia e como se o tempo de afastamento não tivesse acontecido”, disse. “Quando cheguei no portão da casa dele, em Londrina, ele apareceu para me receber e estava andando com lentidão. Nos abraçamos no jardim e fiz a minha pergunta de sempre: ‘E aí meu velho, como você está?’. E fomos para a varanda para uma típica conversa de amigos”.

Em junho de 2022, José Carlos Guitti faleceu em sua casa, enquanto dormia. De acordo com o neto, o idoso estava com o sistema imunológico debilitado e tinha passado por cirurgias de ponte de safena e marcapasso.

Apesar da dor da falta do avô, Francisco garante que pôde viver o tempo necessário com ele e se recorda de um momento especial da infância. “Quando eu era pequeno, ele me levava para os pet shops para fazer carinho nos animais. E também adorava inventar moda na casa. Uma vez construímos uma arma de kung fu de madeira, que eu praticava quando criança”.

Francisco também revelou que escreveu um livro de crônicas chamado “A Verdade e a Chacota do Diabo” e dedicou a obra ao avô José Carlos.

Seu desejo era que ele conhecesse o escrito, que será lançado neste semestre. “Ele gostava muito de ler e introduziu esse hábito em mim. Quando minha mãe me disse que ele estava indo embora, eu só queria que ele pudesse ter tido a chance de ler. Eu tinha pedido anteriormente para meu tio ler para ele, mas não deu tempo”.

A avó bebê

Hatsue Iyeyasu
Fernanda Iyeyasu e sua avó Hatsue Iyeyeasu. Imagem: arquivo pessoal

Muitos jovens escolhem amigos que sejam da mesma faixa etária. No caso de Fernanda Iyeyasu, escritora de 23 anos, a pessoa escolhida foi sua avó paterna Hatsue Iyeyasu, de 93 anos.

A idosa nasceu no Japão e chegou ao Brasil quando pequena. Mas, se estabeleceu de vez no país durante a adolescência. Atualmente, ela vive em São Paulo.

Fernanda tem mais dois avós, mas com sua batchan (avó, em japonês) Hatsue, a relação é definitivamente singular. Por sua personalidade gentil e amorosa, ela é apelidada pelos netos de “bebê”.

“Em casa, todos nós a chamamos de ‘bebê velhinha’. Apesar da idade, ela é cheia de saúde e vigor”, declarou. “Minha relação com minha batchan é única porque, de algum modo, ela enxerga a vida de uma maneira diferente e tem a cabeça no lugar. Além disso, eu e minha irmã, Sayuri, mimamos ela, como se fosse também uma irmã mais nova. Gostamos de agradá-la com o que ela gosta de fazer, com as comidas que ela gosta, e ela sempre responde batendo palmas e sorrindo”.

Por outro lado, a escritora conta que a convivência com a avó mudou intensamente devido às condições impostas pela pandemia de covid-19.

“Antes da pandemia, minha batchan não morava com minha mãe e meu pai. Mas, percebemos que algum dia isso aconteceria, conforme ela ficava mais velha. Quando a pandemia começou, em março de 2020, a batchan tinha 90 anos e fizemos de tudo para não deixá-la sozinha na casa dela. Então, fazíamos compras e cuidavamos de todas as necessidades dela, mas mantendo o distanciamento social com máscaras e outros cuidados de higiene durante as curtas visitas”.

Segundo a escritora, Hatsue nunca deixou que a idade avançada fosse um empecilho para suas vontades e sempre fez questão de ser independente. No entanto, esses sentimentos foram abalados com uma tragédia familiar. Revelando, então, a fragilidade e o medo da solidão.

“Antes ela insistia em morar sozinha. Mas, próximo às festas de fim de ano em 2020, a irmã mais nova da minha avó faleceu. Essa perda a devastou. Logo depois, no Natal, ela surpreendeu a mim e a minha mãe ao chorar e implorar para vir morar conosco. Ficamos bem assustadas com a maneira como ela estava sofrendo. Obviamente aceitamos recebê-la imediatamente”.

Fernanda garante que a mudança foi saudável tanto para a avó, quanto para a família inteira, principalmente pela possibilidade de cuidar da idosa com mais atenção.

“Ela chegou em nossa casa durante a segunda metade da pandemia. Apesar dos riscos, a presença dela tem sido ótima para todos nós, pois matou a saudade que sentíamos e ela enche nossos dias com a alegria dela. Percebo também que ela está mais saudável do que nunca. Acho que por estar conosco, ela está bem mais cuidada”, explicou.

De acordo com Fernanda, os idosos têm um grande valor na composição familiar. Esse reconhecimento ganhou outro patamar durante o isolamento social, quando o contato com os avós foi limitado. Conforme todos foram sendo imunizados, a convivência foi retomada e o afeto se tornou diferente.

Mesmo assim, a escritora insiste que passou a enxergar sua batchan e os demais avós de outra maneira. “Acho que depois da pandemia, mais do que nunca, os vejo como bebês!”, brincou.

“Minhas duas avós tem 93 anos e meu avô tem 83. Eles são tão frágeis e com a idade tão avançada que percebo o quanto eles precisam de atenção, amor e cuidados. Eu sinto que eles mudaram com a pandemia, pois estão mais apegados à família. Mas nós também ficamos receosos em relação a eles, pois são nossos 'bebês velhinhos’”, finalizou.

Laços inquebráveis

Família Stefaniak
Jessica Stefaniak ao lado dos avós José e Lucila Stefaniak. Imagem: arquivo pessoal

A profissional de relações públicas Jessica Stefaniak, 24 anos, sempre foi apegada aos avós, José e Lucila Stefaniak, e passou grande parte da infância na casa deles, em São Paulo.

“Quando eu era criança, eu passava a maior parte do tempo com os meus avós, principalmente depois da escola. Tanto que a proximidade era tão forte, que eu cheguei a morar com a minha avó aos 10 anos de idade, com um quarto só para mim. A convivência com eles era especial”, recordou.

Contudo, a jovem pontua que essa dinâmica familiar mudou radicalmente quando surgiram os primeiros casos de covid-19. A situação forçou os parentes a se distanciarem dos idosos para evitar o contágio, especialmente para proteger José, que se encaixava no grupo de risco devido a diversos problemas de saúde, sobretudo diabetes.

"A minha maior preocupação naquele momento foi com o meu avô. E como eu era muito próxima dele e da minha avó, o isolamento acabou sendo doloroso. Eu tinha medo de contaminá-los. Mesmo assim, respeitamos as recomendações dos cientistas e cumprimos a quarentena para nos proteger”, contou.

Por outro lado, o período foi bastante angustiante para a família, principalmente para Lucila Stefaniak, que temia pela segurança dos entes queridos.

“Um dia, liguei para minha avó e ela atendeu desesperada e chorando, pensando que todos nós morreríamos, diante do aumento de casos de covid-19 que eram noticiados. O primeiro momento da pandemia foi devastador porque não tinhamos certeza de nada”.

Para aliviar a tensão dos avós e matar um pouco a saudade, toda a família de Jéssica fazia chamadas por chats e videoconferência, pelo menos duas vezes ao dia. Assim, os filhos e netos poderiam manter a comunicação com os avóse mostrar a eles que estavam bem. “Passamos todas as datas comemorativas separados, mas continuamos conversando e fazendo essas chamadas quando era possível”.

No entanto, o drama familiar se agravou quando o avô José Stefaniak precisou ser hospitalizado em decorrência da piora nas diabetes, no final de 2020. O quadro de saúde se tornou tão crítico, que os médicos informaram a família que o estado do idoso era terminal.

“Na época em que ele foi internado, próximo às festas de fim de ano, os casos de covid aumentaram absurdamente. Apesar disso, os médicos liberaram a visita da família, mas fizeram isso porque sabiam que ele estava partindo. Ficamos com medo do vírus no início, mesmo assim pensamos: ‘a gente está se despedindo dele, não tem motivo para não vê-lo’”.

Em 5 de dezembro de 2020, José Stefaniak veio a falecer, aos 73 anos. Jessica recorda o momento devastador: “Foi doloroso. Também foi estranho porque nos esforçamos tanto para proteger ele e a minha avó não apenas da Covid, mas de qualquer coisa. E ele partiu”.

Durante a maior parte da quarentena, Jessica foi morar com a mãe e o padrasto em um sítio da família no interior paulista. Após a morte do avô, ela quis retornar à capital, no entanto, como a avó Lucila passou a viver sozinha, a jovem decidiu morar com ela.

“Muita coisa mudou na minha vida desde o início da pandemia. Tanto que eu vivi muitas experiências para proteger meu avós, principalmente o meu avô. Eu diria que a minha relação com eles, que sempre foi forte, se intensificou durante esse período de emergência sanitária. Se não fosse por isso, eu não estaria vivendo com a minha avó”.

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