Diário de São Paulo
Siga-nos
COLUNA

Por que as pessoas têm medo de macumba?

Celebração ao Dia de Iemanjá, na praia do Arpoador - Imagem: Reprodução / Agência Brasil / Fernando Frazão
Celebração ao Dia de Iemanjá, na praia do Arpoador - Imagem: Reprodução / Agência Brasil / Fernando Frazão
André Molinari

por André Molinari

Publicado em 20/08/2025, às 10h09


Quando se fala em “macumba”, a reação comum é de medo, riso nervoso ou repulsa. A palavra, carregada de estigmas, tornou-se sinônimo de feitiço maligno, de ameaça e até de crime espiritual. Mas, na prática, “macumba” é um termo que designa tanto um instrumento musical quanto, popularmente, as religiões de matriz africana como o Candomblé e a Umbanda. A pergunta que precisamos fazer não é sobre o que é a macumba, mas por que tanto medo dela?

A política do medo

O medo da macumba foi cuidadosamente cultivado pela tradição judaico-cristã. Durante séculos, as igrejas se sustentaram em uma lógica de demonização: tudo o que não fosse sua doutrina era classificado como “do diabo”. O controle social passava pelo terror religioso. Criou-se a ideia de que forças espirituais diferentes só poderiam ser maléficas, e assim a espiritualidade africana — rica em símbolos, mitos e rituais — foi transformada em inimiga invisível. É a velha política do medo: manter o povo obediente pela ameaça de castigo divino.

Racismo estrutural travestido de fé

Mas o preconceito não é só religioso, é também racial. O estigma da macumba se confunde com o estigma do povo negro. Quando o batuque ecoa, ele traz consigo a memória da escravidão, da resistência e da liberdade. E é isso que incomoda. O racismo estrutural não tolera ver uma tradição africana resistir, florescer e oferecer respostas espirituais tão profundas quanto — ou até mais — que as da religião dominante. Demonizar a macumba foi também uma forma de manter o negro em silêncio, com vergonha de sua fé.

A farsa da terceirização da culpa

Há ainda um aspecto que poucos admitem: culpar a macumba é um jeito fácil de fugir da própria responsabilidade. É mais confortável acreditar que um “trabalho” foi feito para destruir sua vida do que encarar as consequências dos próprios atos. Quantos relacionamentos não ruíram por falta de diálogo, mas a culpa foi colocada na “magia negra”? Quantos negócios não fracassaram por má gestão, mas o empresário preferiu acusar um “feitiço”? O medo da macumba alimenta a irresponsabilidade pessoal e dá desculpas prontas para quem não quer olhar para si.

Dissipando o preconceito

O Candomblé e a Umbanda não são religiões de maldade. São sistemas espirituais complexos que lidam com cura, equilíbrio, ancestralidade e reconexão com a natureza. Seus rituais são práticas de energia e fé, voltadas para o bem viver. O problema é que, para quem se acostumou com uma visão maniqueísta e eurocêntrica, tudo que foge da cruz e do altar se torna ameaçador.

É hora de romper esse ciclo de ignorância. Medo da macumba é medo do próprio reflexo: medo da diversidade, medo da ancestralidade, medo de admitir que não somos donos exclusivos da verdade. O preconceito contra as religiões de matriz africana não é apenas religioso — é político, é racista e é covarde.

Um chamado à consciência

Ao invés de rir, temer ou demonizar, é preciso aprender a respeitar. A macumba não é inimiga da sociedade; inimigo é o preconceito que insiste em sobreviver sob a capa da fé. Reconhecer isso é um ato de coragem. E coragem, vale lembrar, sempre foi um dom dos Orixás.

Muito Asè é muito irè pra você!
Babá André Molinari


últimas notícias