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O líder que a indústria precisa não nasce no chão de fábrica. Ele é formado.

Imagem: Reprodução/Freepik
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Zora Viana

por Zora Viana

Publicado em 10/04/2026, às 08h58


Deixa eu te fazer uma provocação que poucos ousam colocar em palavras numa sala de diretoria industrial: o maior gargalo de produtividade da sua empresa provavelmente não está na linha de produção. Está na liderança que gerencia essa linha.

Eu sei. É mais fácil culpar o maquinário desatualizado, a alta dos juros ou o câmbio. Mas os dados dizem outra coisa, e dados não têm sentimentos para poupar.

O cenário que a indústria não pode ignorar

Em 2025, a indústria respondeu por 23,4% do PIB brasileiro, um peso econômico que não admite amadorismo na gestão. E ainda assim, quando olhamos para dentro das plantas industriais brasileiras, encontramos um paradoxo incômodo: empresas que investem pesado em tecnologia, automação e processos, mas negligenciam o desenvolvimento das pessoas que comandam tudo isso.

O relatório State of the Global Workplace 2024 da Gallup revelou que 70% da variação no engajamento dos funcionários é atribuída diretamente ao gerente. Sete em cada dez pontos percentuais de engajamento, ou de desengajamento, dependem de quem está na posição de liderança. No chão de fábrica, onde o ritmo é ditado turno a turno, esse número tem um peso ainda mais concreto.

E o custo do desengajamento é real: o Gallup aponta que apenas 23% dos empregados globalmente estão engajados no trabalho, enquanto 62% estão "não engajados" e 15% são ativamente desengajados, gerando uma perda estimada de US$ 8,9 trilhões em PIB global, equivalente a 9% do PIB mundial.

Nove por cento do PIB mundial. Desperdiçado. Por falta de liderança qualificada.

O erro que se repete há décadas

O grande desafio de qualquer organização industrial é manter qualidade, produtividade e baixo custo. Para isso, é fundamental o engajamento dos trabalhadores, e o papel do líder de chão de fábrica é decisivo, pois é através dele que podemos envolver as pessoas no processo produtivo. Neste sentido, o chão de fábrica necessita de líderes, e não apenas meros "gerentes de pessoas" com apenas conhecimento técnico.

Essa distinção é tudo. A indústria brasileira tem o hábito antigo, e caro, de promover o melhor técnico ao cargo de liderança. O operador mais habilidoso vira supervisor. O supervisor mais experiente vira gerente. E de repente, alguém que dominava máquinas agora precisa dominar pessoas, sem nenhuma formação para isso.

Conhecimento técnico é necessário. Mas ele não ensina como dar um feedback construtivo num turno noturno. Não ensina como motivar uma equipe após uma semana de metas não cumpridas. Não ensina como construir confiança dentro de uma cultura de cobrança. Para isso, é preciso formação intencional em gestão e liderança.

O que a ciência confirma sobre formar líderes

O relatório de tendências da GPTW reforça que as competências de liderança mais valorizadas hoje são a empatia e a gestão humanizada. Lideranças humanizadas apoiam o engajamento do time com resultados expressivos: redução de 78% no absenteísmo e 51% no turnover em organizações com altos índices de engajamento. Equipes altamente engajadas apresentam ainda aumento de 17% na produtividade e 23% na lucratividade.

17% de aumento de produtividade. Numa indústria, isso não é número de RH. É o número de metas de produção.

Estudos publicados pelo MIT Sloan Management Review 2024 confirmam que empresas com lideranças mais inclusivas e focadas em bem-estar têm desempenho financeiro superior em até 25% quando comparadas a empresas com lideranças tradicionais.

E o investimento em formação retorna. A Pesquisa Panorama do Treinamento no Brasil 2025/2026 indica que o desenvolvimento comportamental é o foco principal tanto para alta liderança (54%) quanto para gerência e supervisão (51%). Entre os temas de maior relevância para o aumento da eficiência operacional, o desenvolvimento de lideranças surge como o segundo tema mais relevante nas organizações, ficando atrás somente de inteligência artificial.

Quem já entendeu isso

Algumas indústrias não estão esperando o mercado para forçar a mudança. Estão tomando a frente.

A Mobensani, empresa com 60 anos de história no mercado de borrachas automotivas, sediada em Guarulhos/SP, é um exemplo discreto mas significativo dessa virada de mentalidade. Em 2026, a empresa decidiu investir na formação dos seus líderes por meio de uma Pós-graduação em Gestão e Liderança, levando seus gestores da prática operacional para uma compreensão mais profunda de como gerir pessoas, processos e resultados com visão estratégica.

Não é um detalhe. É uma declaração de intenção. Uma empresa que construiu seis décadas de reputação no setor automotivo entende que a próxima era da indústria não será vencida apenas com tecnologia, mas com líderes capazes de extrair o melhor da tecnologia e das pessoas ao mesmo tempo.

A formação que a indústria 4.0 exige

O ambiente industrial está mudando em velocidade que nenhuma experiência empírica consegue acompanhar sozinha. Segundo o relatório "2025 Global Human Capital Trends" da Deloitte, 85% das pessoas afirmam que as organizações precisam criar maneiras mais ágeis de organizar o trabalho para se adaptarem rapidamente às mudanças.

Automação, inteligência artificial, gestão de equipes multigeracionais, pressão por sustentabilidade, saúde mental no trabalho: tudo isso aterrissa no colo do líder de fábrica. E um líder que só foi treinado para resolver problemas técnicos vai travar diante de problemas humanos e estratégicos.

Segundo a Development Dimensions International, em 2025 apenas 29% das pessoas entrevistadas tinham confiança em sua liderança. Menos de um terço. Numa indústria onde a confiança entre liderança e equipe é o que garante a continuidade do processo produtivo sem acidentes, sem retrabalho e sem paralisações, esse número é inadmissível.

A pergunta que fica

Você conhece o currículo técnico dos seus líderes. Mas conhece o currículo de gestão deles?

Porque no final, a máquina mais sofisticada da sua planta industrial não tem painel de controle. Ela tem nome, tem família, tem expectativas e tem um limite de tolerância à liderança ruim que, quando atingida, se chama pedido de demissão.

O líder que a indústria brasileira precisa para os próximos dez anos não é o mais experiente na linha. É o mais preparado para gerir a complexidade humana que existe dentro de cada turno.

E a preparação, diferente de talento, se constrói. Com intencionalidade. Com formação. Com tempo.

Quem começa agora, colhe antes.


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