
por Agenor Duque
Publicado em 10/01/2025, às 10h03
O convite do presidente eleito dos Estados Unidos, Donald Trump, ao ex-presidente Jair Bolsonaro, para que compareça à sua cerimônia de posse em Washington, reacende debates e tensões políticas em torno da atuação do Supremo Tribunal Federal (STF) no Brasil. Com o passaporte retido por decisão judicial desde fevereiro de 2024, Bolsonaro enfrenta entraves legais que podem impedir sua viagem ao evento, marcado para o próximo dia 20 de janeiro. Diante do convite, a defesa do ex-presidente prepara uma nova solicitação ao ministro Alexandre de Moraes, que já negou pedidos semelhantes em ocasiões anteriores.
A decisão de Moraes que levou à retenção do passaporte de Bolsonaro foi tomada no âmbito da operação Tempus Veritatis, vinculada ao polêmico inquérito sobre a suposta trama golpista. Ao longo de 2024, a defesa de Bolsonaro tentou reverter a situação por meio de recursos ao STF, mas sem sucesso. Agora, com o convite de Trump em mãos, o cenário político ganha contornos internacionais, uma vez que a presença do ex-presidente brasileiro na posse pode ser interpretada como um sinal de apoio à aliança estratégica entre os dois países.
Nos bastidores, aliados de Bolsonaro apontam que uma eventual negativa do STF em liberar o passaporte poderá gerar uma crise diplomática sem precedentes entre o Brasil e os Estados Unidos. Trump, que ao longo de sua carreira política manteve uma postura firme em relação a interferências externas, terá como uma de suas prioridades no novo governo a relação com o Brasil, especialmente considerando os laços ideológicos entre os dois líderes. Vale lembrar que Bolsonaro e Trump mantiveram um relacionamento próximo durante seus respectivos mandatos, com parcerias que abrangem desde a área comercial até questões diplomáticas.
O convite enviado por e-mail foi assinado pelo diretor-executivo do comitê de posse, Richard Walters, e encaminhado ao ex-presidente por meio de seu filho, o deputado federal Eduardo Bolsonaro. Na mensagem, Walters refere-se a Bolsonaro como “presidente” e reforça a importância da presença dele na cerimônia. Eduardo Bolsonaro, que acompanhou de perto a apuração da recente eleição presidencial americana, tem sido um dos principais articuladores da relação entre as duas lideranças.
Outro elemento que complica o cenário é a recente inclusão do nome do bilionário Elon Musk no inquérito das milícias digitais, conduzido pelo STF. Musk, dono da plataforma X, foi nomeado por Trump como futuro chefe do Departamento de Eficiência do Governo, o que torna a situação ainda mais delicada. A decisão do STF gerou reações negativas entre conservadores internacionais, que veem a medida como uma tentativa de censura e intimidação.
A primeira tentativa de Bolsonaro de reaver o passaporte foi barrada por unanimidade pela Primeira Turma do STF, composta pelos ministros Flávio Dino, Cármen Lúcia, Cristiano Zanin e Luiz Fux. Em outubro, Moraes reiterou a decisão de manter o documento retido, argumentando que não havia mudança no quadro fático que justificasse a devolução. A nova solicitação da defesa, agora fundamentada no convite de Trump, deve novamente enfrentar resistência por parte do Supremo.
Bolsonaro, que ganhou notoriedade nos Estados Unidos como o “Trump tropical”, recebeu o apoio do então ex-presidente americano durante a eleição presidencial de 2022, quando Trump gravou um vídeo pedindo votos para a reeleição do então mandatário brasileiro. A sintonia entre os dois líderes não passou despercebida no cenário internacional, consolidando uma imagem de alinhamento político e ideológico que transcende as fronteiras nacionais.
Com a proximidade da posse de Trump, o desenrolar dessa situação promete ser acompanhado de perto por observadores internacionais. Uma negativa do STF em liberar o passaporte de Bolsonaro pode reforçar a narrativa de que o ex-presidente brasileiro tem sido alvo de perseguição política. Por outro lado, uma autorização para que ele compareça à posse de Trump poderia ser vista como um gesto de pragmatismo, evitando um embate diplomático que não interessa a nenhuma das partes.
O evento de posse de Trump em Washington, além de seu simbolismo político, representará uma oportunidade de reaproximação entre Brasil e Estados Unidos, especialmente em um momento de tensão global e desafios econômicos. Caso Bolsonaro consiga a liberação para viajar, a presença dele será um marco importante na consolidação dessa relação bilateral. Os próximos dias serão decisivos para determinar os rumos dessa história, que pode ter impactos duradouros no cenário político internacional.
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