
Adriana Galvão Publicado em 21/11/2024, às 08h05
O Brasil é um país perigoso para militantes de direitos humanos. Segundo levantamento conjunto das organizações Terra de Direitos e Justiça Global, de 2019 a 2022 registraram-se no país 1.171 casos de violência contra esses ativistas, dos quais 169 foram assassinatos. Nestas terras, particular e historicamente, parece insuperável a violência desferida contra os que defendem a natureza e os povos indígenas.
Inquéritos policiais estão sujeitos a inúmeros fatores que podem lhes dificultar o andamento, mas os dois anos e meio para conclusão da investigação dos assassinatos do indigenista Bruno Pereira e do jornalista britânico Dom Phillips nos parece tempo demais, dadas as evidências apuradas logo após os crimes. Eles foram mortos a tiros em 5 de junho de 2022 em Atalaia do Norte, no Amazonas, quando visitavam o Vale do Javari, segunda maior reserva indígena do país, onde se tem a maior concentração de povo isolados do mundo. No relatório ora finalizado, a Polícia Federal acusa nove pessoas pelos homicídios.
Vale lembrar, Phillips, 57 anos era colaborador de jornais prestigiosos como The New York Times, The Guardian e Washington Post. O jornalista estava na região para entrevistar lideranças indígenas e ribeirinhos para seu novo livro sobre a Amazônia. Pereira, 41 anos, profissional licenciado da Funai, atuava como consultor-técnico da ONG Unijava (União dos Povos Indígenas do Vale do Javari). Ambos contrariavam interesses de grupos conhecidos por explorar comercialmente territórios indígenas.
A volúpia criminosa daqueles que lucram com a devastação da Amazônia é assustadora, e não é de hoje. Mártir reconhecido mundialmente, Chico Mendes foi assassinado em Xapuri (AC) no ano de 1988 por lutar pelos seringueiros da Bacia Amazônica, cuja subsistência estava vinculada à preservação da floresta e das seringueiras nativas. Lideranças como Chico Mendes não contam com complacência de madeireiros e congêneres, para os quais a gota d’água foi a criação da União dos Povos da Floresta, organização capitaneada pelo seringueiro para unir indígenas, seringueiros, castanheiros, pescadores, quebradeiras de coco e populações ribeirinhas na luta pela criação de áreas de preservação ambiental.
A morte de Chico Mendes fora anunciada por uma cultura que ainda vigora, a mesma que matou Dom Phillips e Bruno Pereira: a de que a Amazônia é um território sem lei.
A crueldade dos cowboys da floresta é ilimitada. Chico Mendes, Bruno Pereira e Dom Phillips não são exemplos únicos. Gente menos conhecida é vitimada na região corriqueiramente. Gente abnegada, como a missionária Dorothy Stang, tampouco é poupada.
O assassinato da Irmã Dorothy, aos 73 anos, em fevereiro de 2005, em Anapu (PA), ilustra à perfeição o grau de tirania que impera na Amazônia brasileira. Membro da Comissão Pastoral da Terra da CNBB (Conferência Nacional dos Bispos do Brasil), ela apoiava ativamente a luta dos trabalhadores rurais na região da Transamazônica, no Pará. Em 2004, fora condecorada pela OAB daquele Estado por sua defesa dos direitos humanos. Seus matadores e os mandantes foram identificados, julgados e condenados.
Segundo uma testemunha, os assassinos da Irmã Dorothy, antes de efetuaram os disparos, lhe perguntaram se estava armada. Mostrando-lhes a Bíblia, ela respondeu: “Eis a minha arma”.
Chico Mendes em 1988, Irmã Dorothy em 2005, Bruno e Dom em 2022. O faroeste que mata ativistas dos direitos humanos na Amazônia ganha holofotes sazonalmente. Entre um caso e outro envolvendo lideranças famosas, muito mais gente, diariamente, é vítima da violência intrínseca a região. Quando algo concreto será feito para acabar com isso?
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