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Marcus Vinícius de Freitas: Expectativa e Realidade

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Marcus Vinícius de Freitas: Expectativa e Realidade

Expectativa e Realidade

Marcus Vinícius de Freitas

A história da humanidade é formada por grandes expectativas com realidades que, também, criaram grandes frustrações. Talvez como resultado da busca de um ideal inalcançável, o ser humano seja forçado a reconhecer as limitações impostas pela realidade da vida.

Nesta semana, será comemorado o 10º aniversário da queda de Hosni Mubarak como líder onipresente e quase eterno do Egito. Tendo servido como presidente daquele país de outubro de 1981 a fevereiro de 2011, eleito e reeleito, com o abuso da democracia, Mubarak predominou no cenário político, apesar da enorme corrupção que existiu em seu governo. Como todos os líderes políticos em situação semelhante, logrou alguns êxitos, como a melhoria no relacionamento do Egito com os países árabes e também com os Estados Unidos, que é um dos principais doadores do país. As irregularidades nos processos eleitorais, no entanto, sempre causaram distúrbios e frustrações na população, além da repressão, pobreza e corrupção. Estes fatores levaram milhares de pessoas às ruas pedindo a saída de Mubarak. Tais demonstrações ocorreram no espírito daquilo que na época se convencionou chamar de Primavera Árabe, iniciada na Tunísia, com a Revolução Jasmim, que derrubou o então presidente Zine al-Abidine Ben Ali do poder.

A Primavera Árabe, que começou quando Mohamed Bouazizi, um jovem vendedor de frutas e legumes, de 26 anos,  que com sua renda de US$ 150 sustentava a família de oito pessoas, protestou e colocou fogo em seu próprio corpo em frente à sede do governo da cidade de Sidi Bouzidi, em 17 de dezembro de 2020, instigou outros países – Egito, Iemen, Libia e Síria – a perseguirem uma melhoria na qualidade de vida e nos resultados dos governos. Todos falharam à exceção da Tunísia, que foi a única que conseguiu colocar à frente do país um governo democrático mais estável.

Em todas as partes do globo, no entanto, via-se com esperança e otimismo a mudança, que era tão necessária no mundo árabe. A ascensão de uma nova liderança, refletindo os ideais de um povo oprimido, poderia ensejar uma renovação importante para aqueles países, condenados a um destino de eternas frustrações. No entanto, o que era para ser uma primavera, rapidamente se transformou em outono, e, por fim, no Inverno Árabe. E, uma vez mais, os países e suas populações continuam na expectativa por dias melhores.

Grandes expectativas têm sido, historicamente, frustradaspela realidade. O mesmo pode se dizer da promessa do capitalismo nos países que faziam parte do império soviético e que viram muitas de suas expectativas frustradas. E por que isso ocorre? Sempre me recordo um papel que encontrei na gaveta do Statler Hotel, o hotel-escola da Universidade de Cornell, há muitos anos: somos todos peregrinos entre dimensões. A Terra é uma escola, repleta de imperfeições para ensinar-nos em nossa caminhada entre eternidades. Apesar de pessoas comuns, ainda é possível realizar coisas extraordinárias, desde que nos recordemos que a frustração faz parte do processo do crescimento e  constitui um elemento fundamental no nosso aprimoramento, pois nos leva a buscar novos rumos e alternativas, além de estimular a expectativa de que dias melhores virão.

O mais importante, no entanto, é reconhecer que expectativas, se não forem administradas com uma certa dose de ceticismo, podem gerar grandes desilusões. Nenhuma liderança jamais será capaz de atender satisfatoriamente ao desejo coletivo. E, mesmo que o fizesse, as demandas sempre subirão de patamar. Isto não é ruim. É a busca do inalcançável  que tirou o homem da caverna e o levou à conquista do espaço. Só não podemos conformar-nos com o medíocre.  Sempre haverá mais primaveras. Essa é a esperança. E como bem disse Charles de Gaulle, “o fim da esperança é o começo da morte.”

Marcus Vinícius de FreitasAdvogado e Professor Visitante, Universidade de Relações Exteriores da China

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