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Lula nunca foi de ler livros e, possivelmente, não deve saber escrever

A prática da escrita exige leitura; descubra como isso se aplica a Lula e a escritores famosos. - Imagem: Reprodução | Fotos Publicas

Reinaldo Polito Publicado em 21/04/2025, às 07h32

Perdi a conta de quantas vezes mencionei uma emblemática entrevista de Lula. Em 1981, ao ser entrevistado no programa Canal Livre, da TV Bandeirantes, o jornalista Flávio Rangel questionou: “Você não está estudando nada? Você sente necessidade de estudar?”

A resposta de Lula foi sincera e ao mesmo tempo ingênua: “Primeiro, eu acho que sou muito preguiçoso. Até para ler eu sou preguiçoso. Eu não gosto de ler, eu tenho preguiça de ler. Pelo hábito, isso é questão de hábito. Tenho companheiro que passa um dia lendo um livro. Eu não consigo.”

Quase ninguém lê
Embora tenha dito que, durante o período em que passou preso, aproveitou para ler livros, cá entre nós, essa história soa meio inverossímil. A experiência mostra que dificilmente alguém adquire o hábito da leitura depois de certa idade. Aos 70, então, pior ainda.

Muitos daqueles que apontam o dedo para ele, no fundo sabem que são muito parecidos. De acordo com pesquisa realizada no ano passado pelo Instituto Pró-Livro, 53% dos entrevistados disseram que, nos últimos três meses, não tinham lido nenhum livro. Pior. Dos 47% que disseram ter lido, apenas 27% completaram a leitura do livro inteiro. Ou seja, 73% das pessoas entrevistadas. Impressionante!

Escrever se aprende escrevendo
Por isso, Lula, não se envergonhe por essa lacuna na sua formação, pois, como viu, está bem-acompanhado. E mais, se quando tinha tempo não abriu livros, agora, com todas essas atribuições do cargo, é que não irá mesmo se dedicar à leitura.

Nesse cenário, entretanto, um efeito colateral emerge. É quase certo que, se uma pessoa não lê, não saberá escrever. Essa atividade de escritor exige infindáveis horas de leitura e uma vida de prática insistente. É escrevendo que se aprende a escrever. E como disse Ruy Castro: “Ninguém escreve bem. Alguns reescrevem bem”.

Foram nove demorados anos
Lembro-me de quando escrevi o meu primeiro livro, Como falar corretamente e sem inibições, que completa agora 40 anos do seu lançamento. Levei nove demorados anos para concluí-lo. Por dois motivos: primeiro, por perfeccionismo. Queria encontrar o melhor exemplo para esclarecer determinada técnica. Consumia semanas pesquisando e substituindo.

Segundo, por incompetência. Sempre que voltava ao texto, encontrava palavras repetidas, frases truncadas, equívocos gramaticais. Por isso, tanto tempo. No fundo foi bom, pois, com todo esse cuidado, e aprimorada ao longo de 113 edições e 700 mil exemplares vendidos, sei que a obra está correta. Ou seja, aprendi não a escrever bem, mas sim a reescrever corretamente.

Famosos escritores tiveram ajuda
Há exemplos de escritores extraordinários que não só tiveram de reescrever como puderam contar com a ajuda de “mãos de gato”. Aquelas mãos invisíveis que deram os toques finais em suas obras. Um dos casos mais conhecidos é o de F. Scott Fitzgerald.

Sim, o admirável Fitzgerald, autor do famoso O grande Gatsby. Dizem que Zelda, sua esposa, teve enorme participação na elaboração de seus textos, como revisora e editora do que ele produzia, até mesmo no processo de criação, inspirando-o com as cartas e diários que ela escrevia. Em alguns casos, ele teria aproveitado literalmente esse material.

Um editor criterioso
E se não bastasse a ajuda de Zelda, o editor da Scribner’s, Maxwell Perkins, foi decisivo em suas publicações. Era tão rigoroso que sugeria mudanças e passava a tesoura sem dó nem piedade. Agia assim com outros autores renomados, como Hemingway e Thomas Wolfe. Não é curioso saber que muitas das obras que lemos e admiramos foram produzidas com a ajuda de pessoas de quem nem fazemos ideia?

Hoje, graças à presença da inteligência artificial, todos podem contar com inestimável auxílio para os seus escritos. Ninguém precisa mais de assessores para reescrever e, em alguns casos, até escrever seus textos. Mesmo que redija tudo errado, com equívocos conceituais e todas as falhas gramaticais, o apoio tecnológico estará pronto para consertar tudo.

Não poderá ser terceirizada

Quem já tem competência nessa arte contará com um acerto aqui, outro ali. Quem não consegue redigir uma frase sequer terá ao lado uma parceria extraordinária. Só não pode esquecer que a responsabilidade do que for escrito jamais poderá ser “terceirizada”. Assim que concorda com o que foi sugerido, os aplausos ou críticas serão de quem assinou.

Portanto, Lula, com o cargo que ocupa, poderá contar com a melhor assessoria que desejar. E, se quiser se valer da inteligência artificial no cantinho do seu quarto, estará bem-amparado, mas precisa ter consciência de que tudo o que divulgar, para o bem ou para o mal, terá as suas digitais.

Lula ENTREVISTA RESPONSABILIDADE Como falar corretamente e sem inibições Tv bandeirantes

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