Reinaldo Polito Publicado em 05/07/2026, às 08h00
Lula descobriu que peitar Trump a respeito do tarifaço pode render dividendos eleitorais. Por isso, ao reclamar das tarifas impostas pelos Estados Unidos aos produtos importados do Brasil, o presidente brasileiro faz jogo de cena. Na linguagem futebolística, corre para não chegar. Não é de hoje que faz discursos agressivos contra o mandatário americano. Assim, talvez dificulte qualquer tipo de negociação e mantenha acesa uma disputa que lhe rende pontos nas pesquisas.
Embora Eduardo e Flávio Bolsonaro nunca tenham defendido a implementação das tarifas, ainda que alguns afirmem que sim, Lula tenta jogar nas costas dos dois essa culpa. Em certos momentos, afirmou que são traidores da pátria. Como muitos de seus seguidores acreditam no que ele diz, poucos procuram verificar se essas acusações encontram eco na realidade. Aceitam o que ouvem como se verdade fossem.
A resposta ao ataque
Para contrapor esses ataques, Flávio Bolsonaro fez o que estava ao seu alcance. Enviou manifestação formal ao escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos alertando para o fato de que a taxação de 25% seria uma arma eleitoral poderosa nas mãos de Lula. Disse com todas as letras no documento enviado que essas medidas beneficiariam a campanha de reeleição do chefe do Executivo brasileiro:
“As tarifas propostas dariam ao atual governo brasileiro exatamente a vitória política que ele vem buscando, ao mesmo tempo que puniriam a economia americana e os próprios brasileiros que defendem uma relação mutuamente benéfica com os Estados Unidos”.
Lula continua no ataque
Flávio pediu que os americanos suspendessem essa taxação, pelo menos até o país passar pelas eleições presidenciais. Lula sentiu essa atitude do seu adversário. Imediatamente, usou as redes sociais para criticar Flávio. Mais uma vez, disse que se trata de uma ação de traidores da pátria. De forma habilidosa, para confundir os eleitores, misturou informações como se todas fizessem parte do mesmo pacote e afirmou que nunca houve justificativa para o tarifaço.
E, interpretando o episódio de acordo com a sua conveniência, acrescentou: “É inaceitável que a família Bolsonaro, com seu entreguismo, queira submeter o Brasil aos interesses dos Estados Unidos, como fica claro no documento enviado hoje por um de seus integrantes ao governo norte-americano”. O pedido para que as tarifas adicionais não sejam aplicadas não parece ser uma atitude entreguista.
A mercadoria eleitoral
Mas Lula não vai perder esse discurso por nada. Como em política a interpretação dos fatos pode ter mais poder que os próprios fatos, prefere continuar batendo nessa tecla que se transformou em trunfo para a sua campanha. Desde a primeira vez em que afrontou os Estados Unidos e constatou crescimento nas pesquisas eleitorais, colocou essa “mercadoria” sobre o balcão como forma de persuadir os “fregueses”.
Para mostrar seu interesse em negociar com os americanos a não aplicação das tarifas, Flávio se inscreveu para se pronunciar na audiência pública que trata desse processo, marcada para terça-feira, dia 7, em Washington. Todo esse debate só tem um objetivo: as eleições de outubro. Cada candidato usa a narrativa que seja mais adequada aos seus propósitos.
Uma boa defesa
Independentemente do resultado desse documento e da participação de Flávio nessa audiência, o candidato da oposição tem agora um argumento para refutar as acusações do governo. Não será fácil, pois Lula partiu para o ataque com antecedência. Qualquer atitude de seu adversário agora poderá ser vista como desculpa.
Flávio terá de ser bastante hábil para neutralizar os ataques governistas. Além da consistência de seus argumentos, precisará desenvolver uma narrativa convincente, que mostre de maneira clara suas verdadeiras intenções. Se entrou na campanha apenas como filho do pai, uma espécie de juninho político, com os últimos acontecimentos sua couraça foi se fortalecendo.
Depois da divulgação do áudio reproduzindo sua conversa com Vorcaro, do vídeo gravado por Michelle, acusando-o de machista, e dos ataques espalhados por Lula sobre seu suposto conluio com os Estados Unidos, começa a ficar pronto para entrar na campanha. Se vai sobreviver ou não é o que veremos. Siga pelo Instagram: @polito