Reinaldo Polito Publicado em 02/03/2025, às 06h19
Sidônio Palmeira, ministro da Secretaria de Comunicação (SECOM) do governo Lula, foi “convocado” pelo presidente para apagar um incêndio preocupante com as sucessivas quedas na popularidade do chefe do Executivo. O novo ministro se notabilizou como extraordinário marqueteiro. Comandou as campanhas vitoriosas de Jaques Wagner e Rui Costa na Bahia.
Seu maior feito foi o de ajudar Lula a se eleger para o terceiro mandato como presidente em 2022. Depois das eleições, continuou próximo do governo como espécie de conselheiro das ações do petista. Como Paulo Pimenta não estava dando conta do recado, a substituição ocorreu de forma natural.
Trocou o ministro, mas não melhorou os números
Lula reclamava que os feitos do governo não eram conhecidos pela população, por isso precisava de alguém competente para cuidar da comunicação, especialmente em uma área bastante carente: as mídias sociais.
Após sua posse, em 14 de janeiro deste ano, as pesquisas não foram favoráveis a Lula. A Genial/Quaest apontou números preocupantes. Em seis estados (São Paulo, Minas Gerais, Rio de Janeiro, Paraná, Rio Grande do Sul e Goiás), a desaprovação superou os 60%.
Não para de cair
Esses números são expressivos porque representam 62% da população brasileira. E não para por aí. Em Pernambuco e Bahia, uma espécie de quintal do PT, a desaprovação superou a aprovação pela primeira vez. Comparada com a pesquisa anterior nesses estados, a queda na aprovação foi de 19 pontos percentuais na Bahia e de 16 em Pernambuco.
Para Sidônio colocar a casa em ordem, será preciso tempo, estratégia e colaboração. Este último requisito é o mais delicado. Lula se recusa a cortar gastos e não vacila em aumentar impostos.
A economia vai muito mal
As consequências são inevitáveis: inflação dos alimentos, preço dos combustíveis nas alturas, taxas de juros na estratosfera. Não adianta o governo dizer que a situação está sob controle, que os números estão bem administrados, se na hora de encher o carrinho no supermercado o dinheiro não dá.
Sem contar a incontrolável criminalidade, as promessas de campanha não cumpridas, gastos palacianos – especialmente com as viagens da primeira-dama –, falta de articulação política, distanciamento da população. Só para citar alguns dos motivos que ajudaram a deteriorar a imagem do presidente.
Lula foi um ótimo orador
Sidônio aposta no carisma e na capacidade de comunicação de Lula para mudar esse quadro. A estratégia atual é pôr o presidente para falar com frequência em cadeia nacional de rádio e TV. A ideia é que ele se apresente a cada 15 dias. Essas atividades vão exigir muito. Haja disposição! O ministro acredita que, assim, os números serão revertidos. Bem, algo precisa ser feito, e com urgência. Os próximos levantamentos de opinião pública podem ser ainda piores.
Lula era um craque do palanque, um verdadeiro encantador de serpentes. Houve época em que sua oratória era imbatível. Possuía a habilidade incomum de identificar as aspirações da plateia e adaptar de improviso seu discurso para aquela realidade. Foi assim que conseguiu chegar aos 87% de aceitação popular no final de 2010. Imbatível!
Já não é o mesmo
Agora, no terceiro mandato, perdeu a mão. Quase todas as vezes em que resolve falar de improviso, o discurso desanda. Fala o que não deve e corrói sua imagem a cada pronunciamento. A situação ficou tão preocupante que, em certos momentos, para não arriscar, passou a ler as mensagens.
Mas quem segura o homem? Não pode ver um microfone que transforma o evento em palanque eleitoral. São falatórios repetitivos, muitas vezes desconexos e inadequados. Como se apresenta diante dos seguidores fiéis, pode dizer o que lhe der na telha que será sempre aplaudido.
Todo mundo fica sabendo
Ele parece se esquecer, todavia, de que esses pronunciamentos não ficam restritos àquele local. As mídias sociais retransmitem suas palavras quase que instantaneamente para todos os cantos do país. E agora, com essas rusgas que arrumou com Trump, também para além-mar. É só confusão.
Dizem as más línguas, em tom irônico, que Sidônio deve ser um infiltrado da oposição. O que mais os adversários querem hoje é que Lula continue falando. Quanto mais pronunciamentos fizer, maiores os riscos de dizer o que não deveria. É como se fosse um diabinho com tridente cochichando no seu ouvido: vai, vai lá e fala!
A oposição também questiona a campanha antecipada disfarçada nesses pronunciamentos em cadeia nacional. Se a estratégia for barrada, que outro plano teria o marqueteiro na manga?