Reinaldo Polito Publicado em 01/03/2026, às 08h00
Bolsonaro fez duas indicações que poderão mudar os rumos políticos do país por décadas: no final de 2021, indicou Tarcísio Gomes de Freitas para concorrer ao governo de São Paulo; e, em dezembro de 2025, chancelou o nome de Flávio Bolsonaro para enfrentar Lula na corrida ao Palácio do Planalto.
Para avaliar o acerto dessas indicações, é preciso voltar ao momento em que ocorreram. Tanto Tarcísio quanto Flávio eram vistos como azarões. Nada indicava, à primeira vista, que teriam êxito em desafios dessa dimensão. As decisões parecem ter sido tomadas muito mais por intuição política do que por avaliações técnicas tradicionais.
Partindo de apenas 5%
Tarcísio era ministro da Infraestrutura, visto como "estrangeiro", carioca e desconhecido por mais de 50% da população paulista e, em alguns levantamentos, por larga maioria. Era, para o eleitorado do estado, um quase ninguém. Ao ser lançado, as pesquisas indicavam cerca de 5% das intenções de voto. Precisaria partir do quase anonimato e subir uma ladeira íngreme até o Palácio dos Bandeirantes.
Hoje, no último ano de governo, registra avaliação positiva de 66,7%. Nas simulações com diferentes adversários, aparece como favorito à reeleição. Diante desse desempenho expressivo, setores mais ao centro, interessados em se afastar do domínio bolsonarista, passaram a insistir para que o governador concorresse à Presidência.
A fidelidade de Tarcísio
Ele teria, segundo esses grupos, enorme chance de vitória. Apostavam, possivelmente, na velha regra não escrita da política: a cria costuma se voltar contra o criador. Até nisso Bolsonaro acertou. Tarcísio tem demonstrado fidelidade política ao seu padrinho, afirmando reiteradamente que não teria chegado onde chegou sem o apoio do ex-presidente. Esse comportamento é raro. A história política está repleta de apadrinhados que, ao conquistar poder próprio, se distanciam de quem lhes abriu as portas.
Maquiavel já advertia que a gratidão é uma virtude instável na política, pois os homens tendem a se afastar de quem os elevou assim que conquistam poder próprio. A fidelidade, nesse ambiente, não é regra, mas exceção. Por isso, quando um líder projetado preserva lealdade ao seu padrinho político, o gesto deixa de ser trivial e passa a ter significado estratégico.
Crias que se voltaram contra o criador
Em São Paulo, episódios como os de Montoro e Quércia, Quércia e Fleury, ou, mais tarde, Alckmin e Doria, ilustram esse padrão de autonomização. O mesmo se observou em outros níveis, como nas relações entre Maluf e Pitta ou entre Itamar Franco e Fernando Henrique Cardoso, nas quais o herdeiro político construiu trajetória própria e se afastou do mentor inicial.
A trajetória do filho "zero um" de Bolsonaro guarda semelhanças com a de Tarcísio. Quando começaram as primeiras conversas, no final de 2025, sua eventual candidatura era tratada com ironia por adversários e até por setores conservadores. Muitos julgavam que serviria apenas para preencher um espaço político e preservar a influência da família do ex-presidente.
Flávio subindo nas pesquisas
Com Bolsonaro inelegível, não foram poucos os que decretaram o fim de sua força política. O curioso é que muitos dos que desdenhavam dessa influência, nos bastidores, desejavam que ele indicasse um nome alinhado aos seus próprios interesses. Queriam os votos, mas sem a presença política do líder.
Essa resistência inicial foi se dissipando à medida que Flávio avançou nas pesquisas. Ninguém pode garantir vitória antecipada. A política demonstra, repetidas vezes, que mudanças bruscas podem ocorrer de um momento para outro. Ainda assim, mantida a trajetória ascendente de sua pré-candidatura, suas chances se mostram hoje bastante expressivas.
Bolsonaro já errou
Bolsonaro errou em diversas indicações durante o governo, fato que ele próprio já reconheceu. Houve escolhas problemáticas em áreas sensíveis, como Educação e Saúde, além do episódio com Sérgio Moro, que inicialmente pareceu um acerto relevante, mas terminou em ruptura ruidosa e desgaste político.
Talvez a inexperiência administrativa tenha contribuído para esses equívocos. Mais experiente, nas indicações de Tarcísio e de Flávio, mostrou-se cirúrgico. Pelo menos até aqui. O futuro, como sempre na política, dirá se a intuição superou, mais uma vez, a técnica.
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