Reinaldo Polito Publicado em 07/12/2025, às 08h53
Se, a exemplo do “impostômetro”, que mede a arrecadação de impostos, existisse um “politicômetro” para registrar o ânimo da população a respeito da política, seria possível deduzir que ele estaria hoje em um dos seus mais elevados níveis de desânimo. Nos últimos anos, à medida que as decepções com os políticos se acumularam, o brasileiro foi perdendo as esperanças de viver em um país melhor.
O Brasil possui uma das cargas tributárias mais elevadas do mundo, mas devolve ao contribuinte serviços de baixíssima qualidade. Basta observar os índices do Programa Internacional de Avaliação de Estudantes (PISA). Os números são desanimadores.
Democracia frágil
No ranking global que avalia 81 países, o nosso aparece em 53º lugar em leitura, 61º em ciências e 65º em matemática. E, para completar o quadro, os 379 pontos obtidos em matemática ficam atrás do Chile (412), do Uruguai (409) e do Peru (391). Nada a comemorar.
Nossa história democrática também não nos deixa felizes. Desde a redemocratização, com a posse de José Sarney em 15 de março de 1985, tivemos dois presidentes impichados, Collor e Dilma, e quatro que, em algum momento, foram presos ou alvo de reclusão preventiva: Lula, Temer, Collor e Bolsonaro.
Embora sejam situações distintas, o conjunto desses episódios reforça a percepção de fragilidade e vulnerabilidade da nossa democracia. O eleitor escolhe seu candidato, que mais tarde poderá ser retirado do poder e, em certos casos, até preso.
Metade do eleitorado
Prender um ex-presidente que perdeu as eleições na linha do VAR, com praticamente metade do eleitorado votando em seu nome, deixa quase 60 milhões de brasileiros desnorteados. Dentro da normalidade democrática, esperariam vê-lo disputando as eleições de 2026 e sendo afastado das urnas apenas se assim desejassem, pelo voto, e não por impedimentos judiciais.
Os números mostram isso. A pesquisa Atlas/Intel divulgada no último dia 2 (terça-feira) indica que, mesmo preso preventivamente e sem poder se comunicar, Jair Bolsonaro empata com Lula. Se estivesse livre, percorrendo o país como sempre fez, os resultados poderiam ser ainda mais favoráveis para ele.
Independência dos poderes
Por isso o desânimo é generalizado. Os governistas veem seu líder despencar nas pesquisas e, em algumas simulações, aparecer empatado com Michelle Bolsonaro, que sequer declarou intenção de se candidatar. Soma-se a isso o desgaste cotidiano causado pela sucessão de escândalos que borbulham nos mais diferentes setores.
A independência entre os Poderes também fica arranhada. O Congresso vive às turras com o Supremo Tribunal Federal e com o Executivo. A recente indicação para ocupar a cadeira deixada por Luís Roberto Barroso deveria seguir exclusivamente os critérios previstos na Constituição: idade mínima de 35 anos, notável saber jurídico e reputação ilibada. Preenchidos esses requisitos, caberia ao Senado apenas sabatinar e aprovar o indicado. Mas não é isso que ocorre.
Sabatina travada
O que menos se discute hoje é se o candidato possui notável saber jurídico e reputação ilibada. O debate gira em torno de fatores políticos: se é amigo pessoal do Presidente da República, se conta com a simpatia do Presidente do Senado. Para ilustrar, o indicado por Jair Bolsonaro, André Mendonça, teve sua sabatina travada por Alcolumbre por longos 141 dias.
A situação atual de Jorge Messias não é muito diferente. Preferido por Lula, mas sem agradar Alcolumbre, que gostaria de ver Rodrigo Pacheco indicado, o impasse gerou um dos embates mais acirrados entre Executivo, Senado e STF, com consequências ainda imprevisíveis.
Mudança nas regras
No meio desse alvoroço, surge o ministro Gilmar Mendes, decano do STF, determinando que pedidos de impeachment contra ministros da Corte, contrariando regras vigentes desde 1950, só podem ser apresentados pelo Procurador-Geral da República.
É mais lenha na fogueira: diante da possibilidade de uma maioria conservadora emergir nas eleições do próximo ano, muitos veem nessa decisão uma forma de blindar os ministros contra futuros questionamentos.
E, para completar, pipocaram esta semana rumores, difundidos por diversos blogs e colunas, de que Donald Trump teria negociado com Lula vantagens para os Estados Unidos em troca da revogação das sanções da Lei Magnitsky aplicadas a Alexandre de Moraes e da retomada da emissão de vistos para ministros. Nada confirmado, mas o simples rumor já aumenta a perplexidade.
Pois é. Desse jeito, o ponteiro do “politicômetro” mais se assemelha a uma biruta de aeroporto, sacudida por ventos imprevisíveis.
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